Por um marxismo queer da periferia

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8 de junho de 2013 por deglutindopensamentos

Lia Urbini

Ao mobilizarmos uma teoria para tentar responder a uma questão prática, surgida no cotidiano, não é raro ouvirmos reprovações baseadas em argumentos como o de que estaríamos “instrumentalizando” o conhecimento. Banalizando-o, transformando-o em mera ferramenta, uma técnica para atingir um determinado fim.

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Bom, as teorias também têm as suas finalidades; o mundo não parece que dispensou a necessidade de ferramentas para se manter ou para se transformar; a dissociação desses dois campos inventados que denominamos teoria e prática continua dando rolo; e ser intelectual, hoje em dia, ainda significa ser um privilegiado, e esse privilégio, na maior parte dos casos, só assegura e reproduz o mundo de privilégios. Se entendemos a instrumentalização não como a despolitização da técnica, mas como sua repolitização, parece fazer sentido apostar nisto: vamos instrumentalizar, vamos fazer teoria (e prática) “dar pra qualquer um/a”.

Apresento aqui a primeira de algumas partes de um programa que procura responder problemas teóricos/práticos sobre a diversidade. Seu ponto de partida é sugerir que muitos desses problemas podem ser resolvidos (e outros, levantados) por meio da aproximação entre marxismo, teoria queer e análise da realidade brasileira.

O que motivaria essa combinação? Como apresentar os pontos fundamentais de cada uma dessas formas de compreensão do mundo e colocá-los para trabalhar juntos, sem barbarismos teóricos e com radicalidade anti-intelectualizante? Tentarei responder a essas questões nesta seção da Geni, “Instrumental”, onde este debate pode se dar, e outros podem ser propostos. Fica o convite.

1. O lugar do conhecimento

Nos livros, nossos sonhos se refugiam para não morrer de frio.” Essa é a fala do professor Gregório para seu aluno Moncho, no filme A língua das mariposas, ambientado na Espanha franquista. Acredito que ela descreve, de algum modo, o lugar do conhecimento para um grupo bastante heterogêneo, designado pela generalizante categoria de “marxistas”.

Assim como as feministas, os indígenas e os gays se agrupam e/ou são agrupados em categorias generalizantes, esses sujeitos possuem alguma coisa em comum que torna a generalização não completamente arbitrária. Com todas as diferenças possíveis entre os marxismos, um eixo comum continua derivando da seguinte proposição de Karl Marx: “Os filósofos, até agora, interpretaram o mundo. Devemos tratar de transformá-lo”.

O mundo está se transformando a toda hora. No entanto, a transformação mencionada, e que ainda não aconteceu de acordo com a perspectiva marxista, é justamente a superação de um estado de coisas no qual a principal diferenciação entre as pessoas advém do fato de que algumas possuem os meios de produção, enquanto outras, apenas a força de trabalho. E essa diferenciação se desdobra em outras, como a divisão entre pensadores e trabalhadores braçais, e entre teoria e prática.

Ai, mas hoje em dia temos a classe média relativizando a separação entre proletários e burgueses, temos o trabalho autônomo e as microempresas, temos a tecnologia e os computadores relativizando a oposição entre trabalho intelectual e braçal, temos o construtivismo relativizando a separação entre teoria e prática. Precisamos superar esses binarismos em nosso mundo múltiplo mais complexo…”

O interessante da problematização marxista é que ela é materialista. Não exatamente o mesmo materialismo da Madonna – uma garota material vivendo em um mundo material, um reducionismo ao aspecto material, econômico das coisas –, mas um materialismo que se contrapõe à geração espontânea, às explicações sobrenaturais e à força da mente. Os marxistas operam com evidências concretas de que, por mais que o mundo do trabalho seja múltiplo, as pessoas continuam trabalhando muitas horas por dia para sobreviver; de que a tecnologia não transformou o cotidiano a ponto de eliminar a oposição entre trabalhos de inclinação majoritariamente física e trabalhos intelectuais; e de que esses postos de trabalho não são alternados entre si, sendo que, grosso modo, os trabalhos mais exigentes fisicamente ficam com uma parcela da população que não possui acesso às mesmas condições de formação que a parcela que fica com os trabalhos intelectuais. Nesse sentido, um mundo complexamente binário, que não vai deixar de ser binário por um decreto ou por uma repaginada nas nossas concepções antigas, a menos que o decreto e a repaginada venham acompanhados de intervenções materiais radicais na realidade concreta.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.”

Carlos Drummond de Andrade, “Poema de sete faces”

Além de materialista, o marxismo também é dialético. Pensar (e agir) dialeticamente é partir do pressuposto de que a vida não é lógica, que a lógica é uma invenção da filosofia que serve para algumas coisas, mas não para explicar os sentidos na vida. E que, se não é a lógica que orienta os sentidos que damos às coisas, então esses podem ser contraditórios. Temos a tendência a evitar contradições porque partimos de uma ficção de coerências que não existe no mundo cotidiano. Nesse sentido, sim, estamos num mundo múltiplo, complexo. Cheio de contradições. E devemos lidar com elas, não tentar ignorá-las.

Arrisco dizer que a atual produção de conhecimento sobre gênero e sexualidade no Brasil se dá com pesquisas e atividades realizadas principalmente nos movimentos sociais e nas universidades. As políticas públicas relativas ao assunto são desenhadas sem diálogo efetivo com essas pesquisas e representam um envolvimento tímido e não programático com o debate, que é realizado na periferia dos centros de decisão e pouco absorvido por eles. Nesse sentido, e aí a possibilidade de contribuição trazida por uma abordagem materialista e dialética, uma tarefa necessária parece ser a de propor interlocuções pouco exploradas, inesperadas, instigar debates, conversar. Procurar borrar as fronteiras entre campos que, por falta de fôlego, correlação de forças ou corporativismo, acabam se fechando e se especializando a ponto de se isolar. Mas, para isso, muito do que se produz sob o nome de teoria queer – bastante tributária do feminismo, ainda que essa associação nem sempre seja bem vista –, associado a uma análise histórica da especificidade da condição periférica, deve ser considerado como complemento fundamental para a renovação da análise marxista.

Por ações e reflexões que tornem combativo e propositivo, mais do que reativo e reprodutivo, o status de refúgio que os livros (e, em geral, os lugares de produção de conhecimento) comportariam. Vamos aos livros, e os criamos, somente para não morrermos de frio. Eles não podem se transformar em spas ou redutos nos quais nos colocamos seguros e dali não saímos.

*Agradeço as sugestões vindas da leitura atenta e dedicada dos amigos,

em especial Gustavo Motta, Luiz Pimentel e Marcos Visnadi.

Texto postado primeiro aqui: www.revistageni.org

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