Ao Coletivo NEGA – uma crítica ao Espetáculo Preto-à-Porter

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28 de maio de 2014 por deglutindopensamentos

Willian Luiz da Conceição

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Nesta segunda-feira, dia 26 de maio de 2014 me obriguei a sair de casa e ir ao SESC/Prainha em Florianópolis. Na agenda uma peça de teatro, o Coletivo NEGA/UDESC reapresentava a peça Preto-à-Porter. Já tinha sido convidado variadas vezes, e por eventualidades da vida assistia pela primeira vez nesta noite, não a uma peça, mas um verdadeiro Espetáculo.

O Coletivo NEGA representa uma tradição do teatro brasileiro, mas especificamente o Teatro Negro criado em 1941 por Abdias do Nascimento, escritor, artista plástico, político e militante antirracista, o histórico Teatro Experimental do Negro – NEN, teve como objetivo romper o racismo e a exclusão de negras e negros do teatro nacional.  O teatro Afroperuano de Victoria Santa Cruz, coreografa, desenhista e compositora peruana que nos marcou a performance de “me gritaron negra!” é citado em Preto-à-Porter.

O Espetáculo Preto-à-Porter do Coletivo NEGA é uma peça complexa, e desde já advirto aos politicamente corretos, aos racistas de plantão, é impossível sair indiferente. O Espetáculo traz as histórias de racismo vivenciados por seus próprios integrantes, uma espécie de regressão psicanalítica que envolve todas/os. Freud explica? A peça trata-se do desejo mais íntimo e provocativo de “expulsar meus demônios”. O teatro protesto do NEGA não perde em qualidade, em estética, sua performance incomoda, nos transtorna, nos atormenta em suas narrativas cotidianas. A maquiagem de suas personagens reforça a negritude, os lábios em tons escuros, a liberdade dos cabelos, a iluminação, os jogos de palco, a musicalidade em poesia própria, a projeção de sombras, este conjunto demonstram a qualidade da direção do Espetáculo.

Fica evidente que o Coletivo NEGA não é só um grupo de teatro, é um coletivo político em tempos de negação da política. Seu Espetáculo denuncia as opressões que marcam o dia-a-dia e que envolvem brancos e negros, homens e mulheres; o machismo, a homofobia, o racismo são colocados em xeque. E enfrenta os dilemas da branquitude. Se o público canta “ÔH Nega do cabelo duro qual é o pente que te penteia? ” a resposta em defesa é “ÔH branco do cabelo mole, qual é a merda que tu engole?”. O NEGA não se envergonha de fazer teatro engajado. Fica o alerta! Em cena se questiona o feminino como mercadoria e os padrões de beleza, a violência, o estupro, o descaso, a infância marcada pela baixa-estima, pela pobreza, de quem foi/e o é constantemente vítima do racismo, sem ser/fazer um teatro vitimista. Porque um teatro formado de sua maioria por Negras/os? Por que a invisibilidade histórica do negro da cena teatral e televisiva brasileira, ou sua marginalidade é uma realidade que nos marca. Protestemos!

As músicas da peça reportam ao transito, o giro do mundo, o Calunga grande, ao navio negreiro, a África em busca de ancestralidade. No Rap, das letras de Racionais Mc’s,música de preto, marginal, a representação do “tapa na cara” da sociedade racista, na poesia de Clara Nunes o “beijo” de quem procura dialogar. Mas um aviso ao que irão ao Espetáculo, “moreninha não!”. NEGA! E “não somos iguais”, ali são resguardadas cada especificidade, de cada história. Preto-à-Porter é um teatro afirmativo!

Se o Coletivo NEGA é pequeno, tem uma alma de teatro grande. Lanço aqui o desafio ao Teatro Catarinense, que se abra as portas dos grandes palcos, as tradicionais casas de Espetáculo que uma coisa fica claro, medíocre o Preto-à-Porter não é. O NEGA não fará feio e o público aplaudirá de pé em um só coro, de bis. De BRAVO! O Teatro Álvaro de Carvalho -, o TAC, o Centro Integrado de Cultura -, o CIC te esperam Coletivo NEGA, assim como em uma noite de maio de 1945 o TEN de Abdias do Nascimento estreava no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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