Os anos 2000 são iguais aos 1990

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21 de janeiro de 2014 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

chico buarqueEu tenho 26 anos, nasci em um período em que todos achavam que filmes brasileiros só falavam palavrão e faziam putaria, que na maioria das rádios e nos carros de porta-malas abertos só tocava pagode e axé, que bom mesmo era assistir novela das 9 na Rede Globo. Não vi Chico Buarque em festivais, nem assisti Glauber Rocha. Achava Caetano Veloso um chato e torcia para o filme da Tela Quente ter bastante porrada, tiros e explosões. Sabia toda a programação do SBT e da Globo durante o dia, mas nunca tinha ido ao teatro. Não perdia um Cinema em Casa, mas nunca ia ao cinema de verdade. Achava a Bossa Nova a coisa mais inútil do mundo e nunca tinha ouvido falar em Tropicália.

Em 2012, enquanto caminhava em direção a sala de aula, cruzei com um grupo de alunos que escutava funk urrando nas caixas de som de um celular. O fato de celulares serem proibidos nas escolas já passa despercebido. De repente, outro grupo me abordou falando de música novamente, esse vinha exaltado e, aos gritos, me dizia que o melhor era ouvir Rammstein, Metallica, e traziam na mão outro celular que aos gritos tocava Nirvana. Nenhum desses alunos tinham mais do que quatorze anos.

Naquele momento parei para refletir: “O que acontece com os adolescentes brasileiros?” Ou escutam letras que dizem algo assim: “Dentro de casa ela é santa Mais [SIC] na rua é trepadeira Ela é rasgadeira Só anda com dedinho na boca Pensando que é mamadeira”. Ou buscam bandas estrangeiras que entopem a mente deles com ideais europeus ou estadunidenses.

Não, não acho que o funk seja um lixo, pelo contrário, enquanto movimento artístico da perifeira é de suma importância, inclusive, acho a Popozuda uma feminista de mão cheia. Encara uma luta contra o machismo e contra o moralismo como poucas no Brasil, mas, por outro lado, o mesmo ritmo que pode ser um veículo emancipatório trata as mulheres como objeto e não como seres humanos, tal qual em letras como a que citei, escritas por homens para falar como as mulheres devem se portar e “o que elas são” as vistas de uma sociedade hipócrita. Quanto as bandas estrangeiras, não quero parecer ufanista, até porque, a minha banda predileta ainda é uma alemã, mas se nascemos e vivemos no Brasil, penso que seria legal se valorizassemos um pouco mais o que é nosso.

Foi naquele momento que percebi que aqueles meninos e meninas eram iguais ao que eu era 10 anos antes, escutavam as mesmas coisas, assistiam os mesmos programas, faziam as mesmas perguntas, tinham as mesmas duvidas sobre o mundo. Como posso eu, então, querer que um garoto de 14 anos conheça Chico Buarque se a TV, que ainda é o principal meio de comunicação no Brasil, mostra Luan Santana e seu Meteoro como o ideal a ser seguido e copiado? Como posso exigir que eles saibam escrever se as músicas que eles ouvem são escritas de forma errada, como o funk do paragrafo anterior? De que maneira vou cobrá-los para que leiam em sala se eles nunca viram seus pais lendo e, portanto, nunca tiveram o interesse despertado? Pelo contrário, todos os dias vêm seus pais chegando cansados em casa, deitando no sofá e esperando o Jornal Nacional contar suas mentiras. Discutindo quem será morto ou quem era o bandido da novela.

Passei a década de 1990 mergulhado em CD’s de bandas estrangeiras, ouvia de Led Zeppelin ou Rolling Stones, e Beatles a Korn, mas tinha em casa um exemplo a seguir, adorava rock brasileiro. Minhas irmãs mais velhas escutavam e eu fui na onda, ainda assim, fui aprender a primeira canção de Chico Buarque no primeiro ano da faculdade, quando comecei a entender o que aquelas músicas “chatas” falavam. Percebi que, na verdade, Chico apenas descrevia o mundo em que os brasileiros se enfiaram durante a ditadura, o emburrecimento da massa, a dor da tortura e da usurpação dos direitos, que suas músicas eram canções que tentavam mostrar o quanto eramos iludidos. A partir daí mergulhei na MPB e fui conhecendo cada vez mais, Caetano deixou de ser chato, Tropicália deixou de ser um movimento estranho, Gilberto Gil não era mais apenas reggae. Precisei de professores e amigos que viviam em um mundo diferente do meu para perceber essas coisas.

Decidi que algo em mim tem de mudar novamente. Não posso olhar para os meus alunos e pensar que a culpa é deles. Não são eles os responsáveis pela sociedade. Ainda. Posso ajudá-los a mudar de alguma forma. Se poesia não é interessante, então recitarei poesias para eles, se MPB não chama atenção, usarei mais música em minhas aulas, se os filmes brasileiros não passam de palavrão e putaria, assistiremos mais ao cinema nacional. Se eu posso fazer um pouco por eles como minhas irmãs e professores fizeram por mim uma década atrás, talvez, esses garotos possam, pelo menos, preferir o Funk do Silva ou a luta da Popozuda em vez do MC Catra, quem sabe passem a ouvir um pouco mais de Legião Urbana e Titãs em vez de só gostarem de música americana e europeia.

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Um pensamento sobre “Os anos 2000 são iguais aos 1990

  1. Gregório Unbehaun Leal da Silva disse:

    Excelente texto! Sentimentos que partilho!

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