O dia em que o Bob Esponja tentou me violentar

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2 de dezembro de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

ÍndiceDe vez em quando o meu filho pede para assistir aos desenhos do Cartoon Network e, poucas vezes, eu deixo. Motivo? Simples: é violência demais para uma criança de apenas 5 anos. Ele, obviamente, como qualquer criança da idade dele, reclama e tenta argumentar que é legal e eu, como qualquer pai preocupado, respondo que não adianta resmungar e explico que as agressões e o palavreado não condizem com a idade que ele possui. Sempre dá certo e ele acaba trocando de canal.

Geralmente, ele zapeia um pouco e para em canais como o nickelodeon que, até agora, me parecia bem adequado ao desenvolvimento do meu pequeno. Dia desses, então, decidi assistir TV com ele. É sempre um momento gostoso, ele fica sentadinho em lótus e me pede para sentar ao lado. O programa daquele dia era o Bob Esponja. Aquele de calça quadrada que vive no fundo do mar, todo mundo já deve tê-lo assistido pelo menos uma vez na vida. De qualquer forma, para quem não o conhece, vale um resumo rápido.

71396491O desenho se passa no fundo do mar, em um lugar chamado Fenda do Biquíni, lá, entre os peixes que são os figurantes da história, vivem uma lula chamada Lula Molusco, uma estrela do mar de nome Patrick, o Plankton (o vilão), uma criatura que pode ser um caranguejo e pode ser, também, um siri, de nome Seu Cirigueijo (É, Seu Cirigueijo, o nome vem sempre acompanhado desse pronome de tratamento dada a importância do personagem) e a Sandy Bochechas, uma esquila que vive com um “aquário de ar” na cabeça, ela é a única personagem feminina no, digamos, núcleo duro do desenho. Por último temos o herói, ele que é amarelo como um queijo, usa uma calça social quadrada, uma camisa branca e gravata vermelha, está sempre pronto a ajudar, tem como hobie caçar águas vivas e possui uma risada muito divertida (o meu filho adora imitar). Bob Esponja! Uma esponja de lavar louça jogada no mar e transformada em personagem principal de desenho animado.

O episódio que estávamos assistindo era algo sobre o Seu Sirigueijo, que é dono do restaurante Siri Cascudo, onde Bob Esponja e Lula molusco trabalham, estar tentando lucrar mais com a mais valia dos funcionários. Bob Esponja, é claro, se esforçava ao máximo para agradar o patrão, afinal de contas ele tem corresponder as expectativas do chefe e dos clientes, ainda que o salário que recebe não seja condizente com as condições de trabalho. Por outro lado, Lula Molusco, o preguiçoso, reclama cada vez que aparece mais trabalho, pois o salário continua sempre o mesmo.

Foi aí que eu comecei a pensar… “O Bob Esponja está tentando me violentar?”

Nos atendo apenas aos três personagens principais desse episódio e pensando em toda a história deles no desenho, vamos aos fatos:

1º – Lula Molusco, o proletário revoltado. O cara que não quer nada da vida, que só trabalha reclamando porque ganha pouco e, por isso é rabugento, é o mesmo que gosta de música clássica e de pintar quadros e, por isso, é o tempo todo execrado pelos colegas e pelo patrão;

2º – Sirigueijo, o patrão capitalista. Aquele que usa todo tipo de artimanhas para enriquecer, como enganar os clientes, explorar os funcionários e maximizar os lucros a qualquer custo. Esse é o cara a ser seguido, aquele que deve servir de meta, tanto para os outros personagens quanto para os que assistem o desenho. Nesse caso, é evidente, as crianças.

3º – Bob Esponja, funcionário do mês e nosso herói. O exemplo de como você deve se comportar. Sempre arrumadinho com aquela calça quadrada e gravatinha, nunca reclama, trabalha o quanto for preciso para agradar ao patrão, sabe o lugar de subalterno que lhe pertence, está satisfeito em ganhar pouco, sua única ambição é caçar águas vivas. Não se interessa pelas coisas que o colega, Lula Molusco, gosta, pois são sem graça e dispensáveis.

Deixa eu ver se ficou claro. Um programa feito para crianças, não mais nos moldes da Guerra Fria de inimigo comunista e amigo capitalista, mas, de forma muito mais simples e direta, ajudando a produzir alienados silenciosos. Crianças que, desde pequenas, compreendam o papel do patrão e do empregado, que elas saibam que, mesmo a partir de interesses que diferem e, ainda que se opunham, essa experiência que Thompson usou para definir o sistema de classes, deve ser esquecida. A consciência de classe não deve, nunca, existir.

É papel do herói se submeter aos desmandos do patrão, não cabe a ele questionar e, pior ainda, investir em eventos e desejos culturais. Isso seria perda de tempo, pois tempo é trabalho e trabalho é dinheiro.

Aquele lixo amarelo no mar pode até ter tentado violentar as minhas ideias, mas, aí, eu mudei de canal, o Vini até reclamou, mas adorou assistir As aventuras de Tim Tim e, de agora em diante, nada mais de Bob Esponja!

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2 pensamentos sobre “O dia em que o Bob Esponja tentou me violentar

  1. Patricia disse:

    Também assisti vários episódios do desenho e quero pontuar algumas coisas Juliano. Ok, as crianças sabem que ele é atrapalhado e tal, mas não podemos pensar que eles compreendem as coisas como nós. Afinal, crianças tentam voar e reproduzem vários outros comportamentos da tela. Nesse caso em específico a mensagem, eu creio, seja mais suave e constante. Como um conceito que é posto aos poucos até se tornar natural. Basta perguntar, para qualquer um destes pequenos telespectadores, qual dos personagens eles querem ser. A resposta é rápida (já fiz o teste): BOB ESPONJA. Pois apesar de todo o desastre ambulante que o Calça Quadrada é, ele continua sendo o principal. Ai rola também aquela coisa de superação, eu não vou ser bobo como ele, eu venderia a fórmula para o Plankton, e blá blá blá. Sim, em alguns momentos pode até haver divergência de como essas mensagens serão interpretadas pelas crianças, mas vamos combinar que em um desenho em que quem gosta de ler e tocar jazz é ridicularizado e que todos moram na Fenda do Biquíni (???????) a mensagem boa não vai ser.

  2. Juliano disse:

    Eu não vejo dessa maneira, Eliton. Assistindo o desenho com frequência, fica claro que o Seu Cirigueijo não é nenhum exemplo, não é uma pessoa legal e usa com má-fé da bondade e inocência do Bob Esponja.

    Para as crianças que acompanham a série, fica muito claro que o Bob Esponja é alguém atrapalhado, despreocupado, que se contenta com muito pouco (em certo episódio ele se diverte com um pedaço de papel de bala, causando inveja na vizinhança) e tem uma cumplicidade extrema com o Patrick, seu melhor amigo, porque este também é atrapalhado e desatento. A alegria e a ingenuidade – e não o modelo a ser seguido, ou padrão de comportamento, porque uma criança SABE que ela não vai conseguir se divertir só com um papel de bala – são usadas de maneira maléfica e cruel pelo Seu Cirigueijo para conseguir mais dinheiro, que tem uma filha consumista e, justamente por isso, é retratada como triste, mimada e fútil na série.

    Pessoalmente, conhecendo a série como conheço (não sou fã, nem estou aqui para defendê-la, apenas estou demonstrando meu ponto de vista como alguém que conhece a história) é preciso um esforço muito maior para chegar às conclusões que você chegou do que às demonstradas pela animação, de fato. O Bob Esponja, aliás, não pode ser modelo de nada porque, pasme, além do Patrick que é um pateta, ninguém gosta dele na Fenda do Biquíni. E isso é retratado em mais de um episódio. Ele seria uma espécie de Chaves.

    E ao assistir mais alguns episódios você verá, por exemplo, que o Lula Molusco é um rabugento em todas as horas e só consegue ser feliz quando encontra a arte. Também conhecerá um pouco mais da Sandy, a esquila corajosa, forte, independente, inteligente e que, ainda assim, trata bem e respeita o Bob Esponja, que é todo desligadão e odiado. A Sandy aliás, protagoniza alguns episódios muito interessantes com críticas à xenofobia (afinal, ela é do Texas e não do oceano).

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