Violência contra a mulher: reflexões e divagações

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25 de novembro de 2013 por deglutindopensamentos

Sando Vivan & Rebeca Duvoisin

violênciaOlha, se apanhou, foi por merecer.” “Mulher tem que apanhar mesmo, se é vagabunda, tem que apanhar.” “Ah, ela é prostituta, não faz mal.” Você já deve ter ouvido isso em algum lugar. Seja em tom de brincadeira, seja sério, a sociedade aprendeu a se acostumar com isso. Internalizou a violência contra a mulher e a transformou em algo natural.

Aprendemos que a violência é a solução, se não para tudo na vida, para boa parte. Mas nem mesmo a violência, tão ampla e genérica ainda hoje, consegue ser minimamente democrática. Ela se dá em maior porção entre mulheres e crianças do que em homens, mais em negros do que em brancos, e mais em pobres do que em ricos. Quando não sabemos o que fazer com a criança traquinas, violência é a resposta que achamos, quando desaprovamos o comportamento sexual de alguma mulher usa de violência e, se ela tiver o mínimo de vergonha na cara, resolve. Se um favelado insiste em ir para o asfalto usufruir das mesmas coisas que o “não favelado”, violência nele – mas apenas o necessário para colocá-lo em seu lugar, porque não somos tão horríveis assim.

E no caso da mulher, a origem desse pensamento remonta a séculos e séculos de opressão e marginalidade da sexualidade feminina, vista como algo menor e de menos importância do que a masculina, chegando, inclusive, a demonização do feminino. A igreja da era medieval (não muito diferente da de hoje) tratava a mulher como um ser mau por natureza. Tudo começou com Lilith, aquela que teria sido a primeira companheira que Deus “arrumou” para Adão. Ela era desobediente, sedutora, e o pior, não se sujeitava ao companheiro. Obviamente ela foi expulsa do paraíso, afinal de contas não se pode concorrer assim, de igual pra igual com o seu homem. Depois dela veio Eva e essa todos conhecem. Na idade média acreditava-se, então, que toda mulher carregava a herança deixada por aquela que mordeu o fruto proibido e o ofereceu a Adão – a herança de ser mulher, é a de ser o ser humano que infringe as leis e que leva o outro para o mau caminho. Com a desculpa de que herdavam maldade e sensualidade diabólica, mulheres eram queimadas em praça pública ou enforcadas. Pagavam por despertar desejos nos homens, o que era definitivamente um ato satânico. No fim da era medieval a coisa não ficou muito diferente. Trocaram a forca e a lenha por pancadaria. Se uma mulher casada era vista com outro, morria. Se surgia apenas a suspeita de adultério, pela dignidade do homem, morria também. Hoje não se fala muito dessa herança de Eva e Lilith, mas se abrirmos o jornal, é possível ver o número absurdo de homicídios de mulheres. Coitadas das mulheres.

 Eva

Na recente História da nossa sociedade ocidental, o espaço que a mulher começa a ter pós II Guerra Mundial se dá por pressões econômicas – tanto a indústria com escassez de mão de obra masculina, dilacerada nos campos de batalha, quanto da mulher que precisava dar conta da sua família – contudo este novo espaço que ela encontrou no mundo, não se refletiu no respeito ontológico. Elas ainda recebiam menos e eram impedidas de ocupar cargos de chefia.

Podemos dizer que nem a conquista da dupla jornada – trabalho social e doméstico – nem a evidente competência e preparo da mulher para atuar nesses dois mundos, fez com que ela, e seus parceiros, se relacionassem de forma igualitária. E isso é importante de ser visto, ainda que houvesse uma abertura as atividades das mulheres no capital – trabalho social e estudo – isso não garantiu a igualdade de gênero, onde ambos os sexos seriam iguais em seus direitos, deveres e divisão das tarefas. Isso não aconteceu.

De forma emblemática, o território doméstico, continua – esperamos dentro em breve conjugar este verbo no passado – conservador, machista e violento, a despeito da viagem a lua, ipads, iphones e carros elétricos, os avanços da tecnologia e “mudernagens” de forma geral não atingiram o núcleo da família.

O que vemos como um resultado mais imediato das vicissitudes do capital são mulheres que criam seus filhos sozinhas, que não dependem financeiramente do homem. Mas se perguntar-nos, sinceramente, o que será que isso significa? Muitas coisas podem ser analisadas daí, todavia, nos parece, que isso é um remendo, uma variação da mesma sonata, que no fundo, é a ideia de família tradicional, sem a tradicional sociedade ao redor, ou seja, sem a centralidade da igreja, cidades pequenas onde as pessoas “cuidavam” mais da vida dos outros, onde apenas os homens trabalhavam, as mulheres não podiam estudar etc. Esses elementos eram vitais para um casamento cosmeticamente perfeito – é bonito de olhar de fora, mas só quem está dentro sabe a barra que é – e eles se foram, mas ao que parece, a ideia de casamento e família continuam aí, povoando os contos de fadas e fazendo a alegria de agências de matrimônios.

Dito isso, a velha violência doméstica, continua aparecendo, e a violência contra a mulher também. Hoje no Brasil o número de estupros superou o número de assassinatos dolosos (com intenção de matar). Ao todo foram 50.617 estupros em 2012, contra 47.136 assassinatos intencionais. Violência contra a mulher, na rua e em casa.

Segundo uma pesquisa publicada pelo Instituto Sangari houve um aumento de 217,6% do número de mulheres assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010.

Ainda, segundo a pesquisa realizada pela Agência Patrícia Galvão, a população ainda considera que a mulher sofre mais com a violência doméstica do que o homem.

Outra pesquisa, de 2010, feita em Portugal diz que violência doméstica contra os homens sobe 20%, Ou seja, uma em cada cinco situações de violência doméstica teve vítimas no masculino.

E isso é interessante, os casos de mulheres agressoras crescem. O número de homens que denunciam que são vítimas de violência doméstica aumentaram. E aqui outra pergunta, por que? Por que as mulheres estão agredindo os homens?

Uma das teorias que achamos na internet – em sites que militam contra o feminismo – é que isso é culpa do feminismo. Na medida em que as mulheres se sentem mais livres e iguais aos homens, elas começam a se sentir no direito de agredi-los. Será que é?

Vejamos, numa busca rápida ao passado, percebemos que o mundo sempre foi um lugar violento, onde os mais fortes venciam subjugando os mais fracos – qualquer semelhança com os dias atuais é mero cinismo. E que a ideia de casar com alguém e ter filhos com essa pessoa – numa relação monogâmica – é muito mais recente que isso. Bom, podemos imaginar então, que quem traz a violência da rua, dos campos de batalha, das arenas, para dentro de casa é o homem. Historicamente falando.

O homem usa a violência – tão cara e importante para a nossa sobrevivência primordial – para a relação interpessoal doméstica. Talvez porque a violência é uma linguagem muito mais presente e acessível ao homem antigo do que o amor – entendam amor como quiserem – ou porque a insegurança dos homens perto de uma mulher os façam regredir até o ponto de um orangotango – sem nenhum tipo de ofensa aos orangotangos. Não importa, a violência doméstica sempre foi uma marca masculina na relação com sua companheira e prole.

Por fim fica a pergunta. Será que é culpa da mulher que a violência contra o homem vem crescendo? E será que a violência contra o homem vem realmente crescendo? Ou somos nós, sociedade machista que ainda acreditamos ser um absurdo a mulher poder contestar o homem e usufruir de seu livre arbítrio assim como fizeram Lilith e Eva?

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12 pensamentos sobre “Violência contra a mulher: reflexões e divagações

  1. Eliselly disse:

    Parabéns pela reflexão Sando e Rebeca!! Texto muito bem escrito e fundamentado. Informações como essas precisam ser disseminadas, para que as mulheres um dia acreditem que a culpa NUNCA é da vítima e denunciem esses “homens”, ou seriam orangotangos?

  2. Rebeca disse:

    João, quando você tenta ridicularizar uma pessoa de forma tão irônica como fez no primeiro comentário, só mostra que não possui argumentos para tratar do assunto em si. Já vi várias pessoas repetirem a mesma atitude que a sua e acredite, é patético. Eu acho patético, as outras pessoas que leram o texto acharam patético, se você perguntar na rua, vão falar que é patético e pasme, você também acha patético, pois quando fizemos o mesmo, você respondeu com raiva disfarçada de ironia. Agora chega desse papo de “eu achei um erro de português no texto e por isso não terminei de ler” e faça uma crítica relevante.

  3. Republicou isso em politica participativae comentado:

    João, qual sua opinião sobre o texto? Tens argumentos sobre o assunto ou prefere ficar apenas falando de erros de português? Nos brinde com sua opinião.

  4. Rebeca disse:

    Obrigada, Gregório!

  5. Parabéns pela esmerada reflexão, embasada em dados fortes, e com opinião bem crítica! Um problema sério esse do machismo! Uma pessoa que deixa de ler por causa de um jotinha nem vou comentar.

    A VIOLÊNCIA É UMA FORMA DE GANHAR DE QUEM NÃO CONSEGUES SUPERAR. OS HOMENS QUE BATEM NAS MULHERES SÃO MUITO MAIS FRACOS QUE ELAS!

    TAVA SENTINDO FALTA DO BLOG!

  6. Rebeca disse:

    Sim, são erros. Erros que passaram batido, mas que já foram corrigidos. Antes de encher a boca pra apontar um erro de português de outra pessoa, tenta escrever seu nome de forma certa. Acentuação incorreta também é erro de português.

    • joao disse:

      Rebeca, o meu texto não tem objetivo algum em ser sério ou formal. Acho que eu sei escrever meu nome, Se não o fiz, não o quis.

      • Eduardo disse:

        João, não é usual usar letra maiúscula depois de vírgula quando não se trata de nome próprio. Escrever o próprio nome errado vá lá, mas deixei de levar sua crítica a sério quando li “, Se”. E sim, esse texto é para pessoas como você, que desvirtuam um assunto sério por conta de uma arrogância simbolicamente violenta, que, dentre outras coisas, é matéria-prima do machismo. Da próxima vez escreva assim: “parei de ler porque sou preguiçoso”, não engane os outros, tampouco a si mesmo.

  7. joao disse:

    O “usá-de” até passou batido mas parei de ler quando li “viajem”.

    • Sr. João, o primeiro erro que você, de forma tão genial, percebeu foi apenas um equívoco de digitação que já foi corrigido. Quanto ao viajem com “J” (Que já está corrigido também) é muito comum acontecer, já que viagem é um substantivo que faz parte do sujeito e viajem é um verbo do sujeito. No caso do texto, na hora de fazermos a correção, o “J” acabou passando batido. Agora, se você relegou o texto à esses fatos, seria interessante terminar de lê-lo, pois, com certeza, ele foi escrito para pessoas como você.

      • joao disse:

        Nossa! Quanto rancor nesse coração! Você realmente conseguiu julgar isso tudo por uma frase? Olha, por causa de pessoas como você textos como esses têm que existir. No mínimo uma ironia. Vamos lá, no “usá-de” dá até pra entender o erro de digitação da letra d, mas e o acendo no á?? E vc está correta, há realmente muita confusão com viagem e viajem, assim como há o “menos e menas” “seja e seje” “a gente e agente”, mas a frequência dos erros os tornam piores. E esses tipos de erros descreditam o seu texto. Achei o conteúdo até plausível com os exageros à parte. O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica. Considere a minha crítica construtiva e continue deglutindo pensamentos, mas não o português 😉

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