“Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino…”

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30 de setembro de 2013 por deglutindopensamentos

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ÍndiceDepois de Homenismo: o oposto desonesto do feminismo, texto postado pela Rebeca Duvoisin aqui no blog, não consegui me manter fora do debate e decidi escrever de onde eu falo. Da posição de homem, heterossexual, branco, de aparência encaixada nos padrões ocidentais de beleza, enfim, de quem nunca sofreu preconceito apenas por ser.

Para começar, vou esclarecer uma diferença simples e básica, mas que ainda causa transtornos quando o assunto é a luta feminista: a diferença entre feminismo e femismo.

Não sei quantas vezes já ouvi, de forma equivocada, que feminismo é o inverso de machismo. Não, não é nada disso. Feminismo é uma vertente de movimentos políticos e sociais, que nasceu na Europa, por volta do século XVIII, e chegou às terras Tupiniquins no início do século XX. Essa vertente luta pela emancipação tanto da mulher quanto do próprio homem, eliminando as diferenças sociais que existem entre os dois gêneros. Femismo é a inversão total do sistema patriarcal em que vivemos. Nele, a mulher será emancipada somente quando nos tornarmos matriarcais e as mulheres estabelecerem o poder sobre os homens. Ver mais aqui.

Pois bem, para ser feminista não é preciso, por exemplo, ser mulher. Basta ser contrário ao modelo machista da sociedade em que nascemos e crescemos, mas na qual alguns de nós não pretendem morrer. Tenho uma mãe, duas irmãs, uma companheira e não quero que elas tenham de continuar a se submeter a coisas simplórias, mas que ainda persistem, como a questão salarial que, em pleno século XXI continua a ser diferenciada de acordo com o sexo.

Segundo o IBGE,  em 2012, enquanto o rendimento das mulheres aumentou 5,1%, o dos homens subiu 6,3%. Com isso, o rendimento médio do trabalho das mulheres chegou a R$ 1.238, ou seja, 72,9% do obtido pelos homens: R$ 1.698. Em 2011, o rendimento das trabalhadoras representava 73,7% do valor recebido pelas pessoas do sexo masculino.

Dados que ficam melhor evidenciados quando discriminados pela Pesquisa salarial CATHO, 2007.

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Quando se trata da violência, a coisa é ainda pior. Em setembro de 2006 a lei 11.340/06, conhecida com Lei Maria da Penha, entrou em vigor no Brasil. O que parece corriqueiro no legislativo brasileiro, afinal essa é a função dele, criar leis, na verdade foi resultado de uma luta incessante por parte da mulher que teve, em merecida homenagem, o nome dado a legislação específica sobre a violência doméstica.

Maria da Penha é uma biofarmacêutica cearense, mas poderia ser qualquer Maria, D. de casa; Joana, professora; Antônia, cozinheira; Júlia, empresária… Em 1983 ela sofreu a primeira tentativa de assassinato pelo marido Marco Antonio Herredia Viveros. Enquanto dormia foi alvejada nas costas sem a menor possibilidade de defesa. Sobreviveu, mas ficou paraplégica. Não satisfeito, o esposo a empurrou da cadeira de rodas tentando eletrocuta-la no chuveiro.

Maria da Penha o processou, mas o primeiro julgamento aconteceu apenas em 1991. Não somente pelo fato de a justiça no Brasil ser lenta, mas mais pelo tipo de crime em questão, que não costumava “dar em nada” e, dificilmente, era julgado. Mesmo com todas as evidências os advogados de Viveros conseguiram anular a sentença e, somente em 1996, em novo julgamento, o réu foi condenado há dez anos de reclusão, recorreu e continuou em liberdade.

Sem um resultado efetivo, Maria da Penha recorreu a Organização dos Estados Americanos (OEA), esse, foi então, o primeiro caso de violência doméstica analisado pela entidade. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos acatou a denúncia e condenou o Brasil por negligência e omissão. Parte da pena consistiu na recomendação para que fosse criada uma legislação adequada a esse tipo de violência.

Em 2006, então, a lei passou a vigorar e a violência contra a mulher deixou de ser considerada um crime de menos potencial ofensivo, englobando, além da violência física e sexual, também a violência psicológica, a patrimonial e o assédio moral. Além disso, as penas deixaram de serem pagas com cestas básicas ou multas.

Na última semana, porém, os noticiários de todo o país e, inclusive, alguns estrangeiros como a BBC de Londres, divulgaram uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea – que mostrou que os números da violência no país não tiveram redução após a criação da lei 11.340/06.

O problema é o que essa pesquisa deixa de fora. Segundo o próprio Ipea, o estudo realizado pelo instituto investigou apenas os óbitos, o chamado feminicídio, que é a morte intencional de uma mulher. Sem levar em consideração os outros tipos de violência. As informações obtidas sobre essas mortes, mesmo depois de Maria da Penha, ainda são um desafio, pois, na maioria dos países, não só no Brasil, os sistemas de informação sobre mortalidade não documentam a relação entre vítima e assassino, ou os motivos do homicídio. O Ipea, então, recomendou a inclusão de um campo na declaração de óbito, que permita a identificação dos falecimentos de mulheres em decorrência de violência doméstica, familiar ou sexual e o monitoramento destes eventos. Com isso, é fato que os números da violência continuarão em expansão. Assim como a quantidade de denuncias realizadas.

Essa pesquisa não levou em consideração também, o fato de que, agora, as mulheres têm a quem recorrer e onde denunciar a violência que sofrem. Entre 2006, ano da criação da lei Maria da Penha, e Dezembro de 2012, o número de denuncias cresceu incríveis 600%. Foram de 12.664 para 88.685 em apenas seis anos. Foram 50.236 casos de violência física e 1.686 de abuso sexual somente em 2012. Isso porque o sistema ainda é muito deficitário, em todo o país existem apenas 503 delegacias da mulher, 223 centros especializados de atendimento e 72 casas abrigo. Ou seja, a proteção está apenas nas capitais e nas grandes cidades. No interior as mulheres ainda não têm para onde “correr”.

Ou seja, a lei não teve resultado na diminuição da violência ou ela foi responsável por revelar números reais?

Aí vem uma página no facebook e um grupo de machistas, inclusive mulheres (não precisa ser homem para ser machista), dizendo que a sociedade é matriarcal e que se os homens fossem seguir os padrões Disney de príncipes encantados eles teriam de nascer de novo, invertendo a lógica dos contos de fadas onde a princesa deixa de ser a submissa para fazer o papel de opressora. Para esses homens eu reproduzo o questionário existente na Cartilha de combate a violência contra a mulher desenvolvida pela Petrobras.

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Para terminar, um recado àqueles que costumam dizer que feministas são apenas “mulheres mal comidas”. Esses provavelmente nunca foram para cama com uma delas, e eu posso garantir, são as melhores. Se não acreditam em mim, deem uma olhada no documentário Liebte der Osten Anders? (“Comunistas transam melhor?”, na tradução do título em inglês) e tirem suas próprias conclusões.

 

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3 pensamentos sobre ““Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino…”

  1. Lucas Felix disse:

    É uma página de humor. Pelo texto, eu não tenho muito a dizer além de: Não é preciso ser mulher para ser femista.

  2. Ótimo texto.

    1. Não concordo com você ser o padrão de beleza hehehhehe.

    2.Há uma questão, que é interessante o papel do homem no mundo contemporâneo, com as mulheres ocupando papéis os homens sentem-se intimidados. Talvez seja isso que se refira esse homenismo. SImples tratam-se de conservadores que querem voltar ao passado. Na verdade ainda que impere a injustiça intragenero, estas muitas conquistas incomodam os retrográdos. Incomodam mesmo tanto que muitos têm ido ao terapeuta. Não tenho pena, tenho nojo. Tem muito que aprender com as mulheres. Eu tenho orgulho de ter mãe, irmã, namorada e de muitas outras mulheres que lutam contra toda essa injustiça vivendo um vida plena.

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