Embaixadoras revolucionárias da diferença

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4 de setembro de 2013 por deglutindopensamentos

Lia Urbini

Entrevista feita durante a passagem da dupla cubana de hip-hop Krudas Cubensi pelo Ladyfest de São Paulo.

Para quem não conhece, o Ladyfest é um festival feminista autogestionado, organizado por voluntárixs de forma local e independente em vários países. Teve início em Olympia, nos Estados Unidos, em 2000, e, nos anos posteriores, grupos em outras regiões começaram a fazer as suas edições. No Brasil, o festival foi realizado pela primeira vez em 2004, e teve sua nona edição paulista na primeira semana do mês passado, curtida e relatada pela revista Geni, onde esse texto foi postado primeiramente.

O Ladyfest é bastante marcado pelas características da cena do rock de mina, versão brasileira das riot grrrls (sobre o assunto, indicamos este artigo), mas agrega outras influências artísticas que também problematizam questões de gênero. Os shows são as atividades principais, mas o festival os combina com debates, troca de fanzines e oficinas (que vão da confecção caseira de absorventes à autodefesa feminina e ao reparo de instrumentos musicais).

Nessa última edição do festival, além dos shows, houve bate-papo com as Krudas e exibição do documentário 4 minas.

A diretora e roteirista do vídeo, mais conhecida por ser vocalista da banda Dominatrix, Elisa Gargiulo, e uma das “4 minas”, a MC Luana Hansen, também conversaram com o público após a projeção. Foram muitas e intensas as atividades, mas foi este bate-papo* com as Krudas cubanas Odaymara Cuesta e Olivia Prendes que escolhemos contar com mais detalhes por aqui.

Krudas-9

Público. Nos contem um pouco sobre o início da banda!

Odaymara. Krudas Cubensi foi fundada por mim, Olivia e Odalys Cuesta (Wanda), minha irmã, em 1999. Antes disso, duas datas foram muito importantes para a gente. Em 1996, começamos a fazer teatro experimental com rap e fundamos o primeiro grupo artístico de ativismo vegano e queer, chamado Cubensi; já em 1998, participamos de um histórico festival internacional de rap em Havana. Consideramos esse festival uma expressão artística do que chamamos de revolução dentro da Revolução, que seria o reconhecimento da necessidade de uma transformação social urgente no que se refere à discriminação racial.

Apesar de todas as conquistas anticapitalistas no país, ainda havia – e há – tratamentos distintos para negros e brancos em relação a emprego e status social. O movimento de hip-hop, entre 2001 e 2005, contribuiu bastante para promover a consciência negra, e a maior abertura para a expressão da cultura negra em geral, a partir desse mesmo período, foi o contexto que nos permitiu desenvolver as Krudas e também falar de gênero e sexualidade. Começamos a trabalhar como duo de hip-hop, eu e Olivia, a partir de 2004, e desde 2006 estamos viajando, fazendo música e ativismo pela América, chegando agora aqui no Brasil.

Público. Vocês não moram mais em Cuba, certo? Como foi optar por sair do país, escolher morar no Texas?

Olivia. Entre 1970 a 1990, se formou uma geração, que é a nossa, que cresceu um tanto fechada. Tínhamos muito contato com arte e produtos russos, eu tive aula de música e língua russa, por exemplo, e nosso conhecimento sobre o mundo foi se intensificando com a abertura para o turismo. Esperamos nove anos para o visto de saída. Pra quem é artista, pra quem precisa viajar pelo mundo para passar suas mensagens, é uma situação difícil. Assim como foi difícil a nossa decisão de deixar o país, em 2006. Em Austin, no Texas, fomos muito bem recebidas no Rhizome Colective, a cidade tem muito ambiente musical e de ativismo, e isso é muito bom para nossa obra.

Odaymara. Tem também o bloqueio… [Odaymara se refere à política de embargo econômico dos Estados Unidos, que compromete a economia cubana e leva à política de contenção de custos, prejudicando, entre tantas atividades, a atividade artística.]

Público. E a questão de gênero, vocês poderiam nos falar sobre como ela é tratada em Cuba?

Olivia. Gênero é outra revolução dentro da Revolução, está acontecendo e ainda precisa se desenvolver bastante. Alcançamos as transformações sociais mais abrangentes, mas elas não são suficientes sozinhas. É importante incluir nessas transformações a dimensão individual, entendida como essa esfera mais micro, interpessoal.

Krudas-61

Geni, do público. O senso comum normalmente trata Cuba como um lugar no qual não se tem espaço para manifestar oposições, enquanto que em outros países, como o Brasil, isso não aconteceria. No entanto, sabemos que aqui muita divergência é reprimida, e que há muitos espaços reservados para a participação popular que funcionam apenas como fachada, sem participação real. Nesse sentido, não haveria semelhanças entre não ter espaço de contestação e haver um espaço de fachada?

Olivia. Acho importante poder visualizar um espaço, ainda que ele seja pequeno. Ainda que ele seja de fachada. Estou aqui pensando em um movimento cubano conhecido como Las Damas de Blanco [As damas de branco]. São mulheres que saem de branco pelas ruas com flores na mão, fazendo seu protesto. E, frente a isso, chegam brigadas populares para reprimir a ida às ruas, gritando “esta rua é de Fidel”, como se questionar determinadas atitudes do governo fosse sinônimo de questionar o governo inteiro. Isso não deveria acontecer, todas as pessoas têm o direito de se manifestar.

Público. Como começou o envolvimento de vocês com o veganismo?

Olivia. Para nós, se trata de coerência na luta. Se lutamos contra a exploração e a dominação das mulheres, se lutamos contra a homofobia, contra o preconceito racial, não podemos deixar de lado a opressão contra os animais.

Odaymara. Existem muitas bases para o sistema capitalista se estruturar – o patriarcalismo, as discriminações, o sistema prisional e a indústria da carne são algumas delas. Lá em Cuba não há, como aqui, esses lugares horríveis com os animais todos assim [faz mímicas sinalizando bois no açougue]. Além disso, ao contrário do que normalmente se pensa, veganismo não é só para ricos, precisamos inverter essa lógica. ¡Sí, se puede! Temos bastante informação na televisão, há incentivo para que as pessoas comam vegetais, para que não comam somente arroz, feijão e frango. Existe uma política preventiva boa em relação a hábitos alimentares, e pensar sobre o que se come é fundamental para encontrar os caminhos da autonomia. Mas especificamente o veganismo começou a se tornar mais popular em Cuba através dos contatos pessoais. Na década de 90 conhecemos amigxs que não comiam carne… “Nossa, é possível?” E então elxs nos contavam como faziam…

Olivia. E tivemos outros mestres [aponta tatuagens de plantas maravillosas que tem em seu braço].

Geni, do público. Como o aborto é tratado em Cuba?

Olivia. Essa é ótima. O aborto é permitido e tranquilo de fazer. Não se tem muitos impedimentos burocráticos, é um direito da mulher. Além da medicina cubana, que funciona muito bem – minha mãe, por exemplo, adora médico, está sempre cuidando de alguma coisa –, temos também a medicina natural, dos chás e da cultura iorubá nas ruas. E é bastante popular.

Público. E no que se refere às drogas, qual a posição de vocês? Como é isso em Cuba?

Olívia. Depende do que você chama de droga. Há uma droga legalizada e que causa bastante estrago, chamada rum cubano. Eu sou favorável ao uso de drogas naturais, como a maconha e os alucinógenos. Aliás, essa poderia inclusive ser uma solução para a economia da ilha, o turismo mágico!

Odaymara. Algumas drogas sintéticas também chegam, como o crack e a cocaína, mas, como a entrada é sazonal, não há vício, as pessoas precisam se curar sozinhas.

Público. Vocês se apresentaram no Michfest, um festival de música de um feminismo bastante complicado, com episódios de transfobia. Gostaria de saber a posição de vocês em relação a essa experiência [a pergunta remete à política das feministas cissexuais organizadoras do evento, no qual se pede para que homens e mulheres trans não participem das atividades].

Olivia. Não é porque estamos em um espaço que concordamos com tudo o que acontece lá. Tocamos nossa música, representamos nossa cultura, passamos a nossa mensagem. Essa é a nossa maneira de intervir.

***

Depois de tocar no Ladyfest, em São Paulo, as Krudas seguiram viagem pelo Brasil, participaram de saraus, conversas e encontros universitários, como o Enuds (Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual). Para quem quiser acompanhar a agenda de shows e atividades da dupla, esse é o site delas. Vai, Krudas

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