O mito da democracia racial: o grande erro de Gilberto Freyre

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16 de agosto de 2013 por deglutindopensamentos

O Grego

imagesO Mito da democracia racial é a ideia de que haveria no Brasil, ao contrário de outros países como África do Sul e Estados Unidos, uma convivência pacífica das etnias, e que todos teriam chances iguais individualmente de sucesso. Sobre essas chances, nega-se toda a história de escravidão de nosso país. O texto de Felipe, Cotas pra quê te quero? mostra claramente esta desigualdade nos dias de hoje. O objetivo das linhas que se seguem, porém, é mostrar de onde surgiu o mito e qual o grande erro contido no mesmo.

Gilberto Freyre, sociólogo brasileiro dos anos 1930, foi responsabilizado pela criação deste “mito”, embora não houvesse dito ou escrito nada diretamente com este nome. Mas foi através de sua obra que teria surgido esta ideia de que no Brasil não há racismo, então os que a adotaram seguiram repetindo o mesmo erro que o autor cometeu no início do século XX. Que erro é esse? Mais detalhes a seguir .

Jessé de Souza (2000) aborda as duas obras que por ele são consideradas as melhores de Freyre, Casa Grande e Senzala (CGS) e Sobrados e Mocambos(SM). Em CSG, Souza já percebe de forma pioneira a importância da família dada à especificidade da empresa colonial lusitana. Freyre pensou, então, de forma singular em comparação a outros clássicos da Sociologia brasileira que pensavam a modernidade no Brasil mais focada em modelos weberiano e marxistas. Destacam-se em sua análise das causas da especificidade da modernidade brasileira: a importância do sexo na formação; a importância da hierarquia personalista; o tipo de escravidão copiada dos mouros que favorecia a poligamia; a forte ideia do sadomasoquismo social. Ou seja, são vastas as percepções originais e fatos que Freyre absorveu. SM aprofunda ainda mais, para Jessé Souza é a maior obra do sociólogo.

Essa importância está na percepção de que a “superação” do racismo do negro se daria por conquista individual e não por luta coletiva dos mesmos, seria essa uma grande peculiaridade brasileira. Consequentemente os intermediários no sistema CGS (os apadrinhados pelo senhor de escravos) é que na modernidade conquistarão empregos como o de bacharel e trabalhos manuais especializados. Então em SM se daria uma coesa analise da modernidade à brasileira.

Freyre percebeu de forma brilhante que a saída do negro (mais do mulato, como os estratos intermediários) da condição subalterna se daria via conquista individual (a história do negro de alma branca) ao contrário dos Estudos Unidos em que numa condição de apartheid tiveram que se unir em movimentos pró-direitos civis como o liderado por Martin Luther King. Talvez por exaltar essa possibilidade de crescimento dos estratos intermediários, muitos culpam Freyre de haver alimentado o mito da democracia racial (uma igualdade das raças), embora valha frisar que Freyre não tivesse utilizado esta frase em nenhum texto. Exaltar e valorizar foram os erros freyreanos, com consequências nefastas ao preconceito moderno brasileiro que se deu devido ao ocultamento (ou teria ele não percebido?) do racismo existente e diluído nas práticas sociais rotineiras da modernidade e, principalmente, nas diferenças de oportunidades entre brancos e negros. Até mesmo Jessé Souza, que tentando de forma justa recolocar os méritos da obra freyreana (principalmente em SM), percebeu este defeito:

Para o ‘holista’ Freyre, para quem a questão principal é o acolhimento do diferente, dentro de uma hierarquia que provê a todos com um lugar, a possibilidade de ascensão individual de pessoas de cor terminaria por ‘resolver’ no Brasil, a questão racial como um ‘caminho alternativo’ de resolução da questão democrática” (SOUZA, 2000, p. 250).

Faltou a Freyre perceber este ponto de partida diferenciado entre negros e brancos, em que os primeiros, em sua imensa maioria, continuam na penúria e pobreza e em condições tão ou mais degradantes que a da escravidão.

Escapava também a Freyre que o princípio da igualdade política e jurídica não é meramente adscrito a uma esfera específica da sociedade e que, em certo sentido, qualquer caminho alternativo que o ‘contorne’ está viciado de nascença. Igualdade não é um mero ‘direito’ que pode ser compensado por valores e práticas ‘benignas’ de assimilação e integração. Igualdade é o valor básico da modernidade ocidental, sendo a fonte de dignidade e reconhecimento individual em primeira instância. A possibilidade de premiar o desempenho individual e traçar hierarquias alternativas e independentes da igualdade político-jurídica, existe, e é um ponto importante do debate político contemporâneo. Mas este não é um caminho ‘alternativo’ à igualdade política, mas, ao contrário, a pressupõe. O caminho do ‘embranquecimento’ é um caminho viciado porque o branco já é, desde o começo, ‘superior’ ou ‘mais igual’ que o não-branco. Nenhuma possibilidade real de ‘embranquecimento’ elimina essa realidade prévia e fundamental (Ibidem).

Freyre (2003; 2004) via “com bons olhos” a modernidade brasileira em que o negro teria chance de se destacar individualmente. Apesar da original análise da sociedade, Freyre comete o equívoco de não perceber o ocultamento do racismo à moda do Brasil. A escravidão no país se deu com proximidade ao contrário da norte-americana que ocorreu com base no distanciamento, o que causou esta invisibilidade ao racismo. Mas que, hoje, se repercute, por exemplo, na dificuldade da aceitação das cotas nas Universidades Federais. Nos Estados Unidos, além de os negros se unirem e conseguirem lutar mais pelos seus direitos, as cotas raciais não tem o mesmo repúdio. Há a diferença entre o estigma e o orgulho gerado em parte por essas diferenças de escravidão entre os dois locais. Sendo que o orgulho no caso do negro estadunidense é visível. Já o sentimento de estigma, a própria vergonha de sua cor, faz com que o brasileiro tenda a todo custo se afastar desta origem e “embranquecer” para ser aceito na sociedade moderna. Por isso que se fala em superação individual do racismo (embora ele nunca seja plenamente superado) no Brasil e em superação coletiva do Racismo nos Estados Unidos ou ainda na África do Sul. Essa superação individual do racismo se dá a título de exemplo, em casos em como o que ocorre com muitos negros no Brasil, mesmo tendo direito não se inscrevem enquanto cotistas étnico-raciais, buscando o sucesso acadêmico individualmente (tornar-se mais um branco), e não coletivamente. Não perceber a permanência do racismo e seguir uma lógica liberal de meritocracia individual sem se ater as origens desiguais de negros (pardos incluso) e brancos foi o grande erro da obra de Gilberto Freyre e principalmente de muitos de seus seguidores.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. Fundação Gilberto Freyre, Recife, 14ª edição, Global Editora, 2003. (Original de 1936)

FREYRE, Gilberto. Casagrande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 49ª Ed. São Paulo: Global, 2004. (Original de 1933)

SOUZA, Jessé. Uma interpretação alternativa do dilema brasileira. A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema brasileiro. Brasília: Unb, 2000, p.205-270.

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4 pensamentos sobre “O mito da democracia racial: o grande erro de Gilberto Freyre

  1. Olívia Unbe disse:

    Muito bom! Realmente o racismo que temos no Brasil é algo “velado”, quase soa a hipócrisia. E não surpreende que aqui o negro para pogredir dependa da meritocracia, assim é com todos os excluídos do sistema!

  2. Mafalda disse:

    Muito interessante o texto. Um pouco truncado, mas interessante. Dessa vez não pegarei no teu pé Gregório

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