Em tempos de crise política, um grego

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19 de julho de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

politica_aristotelesNa falta de tempo para criar, reaproveitar textos escritos por obrigação.

Como diria Francis Wolff, “é certo que a política, sim, fala grego” (WOFLL, 1999 P.7). Por isso é impossível falar de política sem lembramos de autores clássicos como Arristóteles.

Aristóteles, em seu livro A Política, inicia questionando o fato do “poder de um rei ou de um magistrado de república só se diferenciar do de um pai de família e de um senhor, pelo número maior de súditos” não havendo “nenhuma diferença específica entre os seus poderes.” (ARISTÓTELES, 1998 p.1) Para desconstruir essa ideia, o autor detalha o Estado, procurando examiná-lo em suas partes.

Segundo Aristóteles, a formação da cidade se dá de forma natural com a existência do senhor e do escravo. Para ele, os mais inteligentes são, naturalmente, levados ao posto de comando social, enquanto os menos capazes, devem, então, ocupar o seu lugar de obediência na sociedade.

A união de várias famílias que, para o autor, se trata da “sociedade natural”, formada da necessidade de sobrevivência dos seres humanos, que unidos entre macho e fêmea, garantem a perpetuação da espécie. Esse conjunto de famílias deu origem as aldeias que mantêm o seu formato familiar, porém se expandem em um sistema de colônia que, sob o controle de um patriarca, como um monarca, dá origem a cidade.

Essa reunião de várias aldeias deixa de possuir o sentido original da família que era de perpetuação para surgir como a busca do bem estar entre as pessoas. O homem, nesse sentido, se torna um ser político, pois tem de participar ativamente da formação e manutenção da sociedade, do contrário, tornar-se-ia isolado e, consequentemente, seria levado a guerra pela busca de satisfação individual. Indo de encontro a esse pensamento, Arendt determina que é impossível aos seres humanos viverem sozinhos. Para ela, as pessoas são seres sociais que precisam da existência de outros para continuarem vivendo, do contrário, não diferenciaram-se dos animais, já que, o que os difere, é justamente a capacidade da ação, e para que essa exista é necessário outras pessoas para compartilhá-la.

Sendo assim, a cidade funciona como um organismo vivo que depende, inteiramente, de seus membros, cada qual com suas funções, criando interdependências que garantem a sobrevivência e o bem estar de todos. Arendt defende ainda que a sociedade surge a partir da criação da família e que, dessa primeira instância, vêm as cidades, onde os cidadãos passam a possuir duas vidas, a privada e a política, existindo aí uma grande diferença entre o que é privado e o que é publico. Ainda assim, de todas as atividade presentes nas comunidades humanas, somente duas eram consideradas políticas, a ação (praxis) e o discurso (lexis). E com a criação das Cidades-Estados essas duas puderam ser postas em prática.

Para Aristóteles não deve haver diferença entre semelhantes. Para ele, entre os pares deve haver honestidade, justiça e paz e cada um deve ter a sua vez, visto que seria contra a natureza se entre eles houvesse discordância. Salvo nos casos em que algum deles faça algo de extraordinário que lhe dê o poder de comandar. Além disso, aquele que se destacasse deveria possuir grande energia, para que fosse capaz de exercer tal atividade.

Arendt vai além quando diz que, na antiguidade, entre os “iguais” havia igualdade de direitos, mas o fato de uma parcela da população possuir tais direitos era, por si só, gerador de desigualdade. E era somente na esfera pública que o indivíduo podia demonstrar-se como diferente realizando feitos singulares e mostrando ser melhor que os outros.

O autor grego diz que o ser humano se torna mais feliz conforme o tamanho de sua virtude. E com o Estado, não é diferente. No Estado que se atém apenas a luta contra outros Estados, não pode ser feliz se sua luta não for justa, assim como aqueles que têm em suas leis o não uso da força podem ser felizes desde que sejam honestos e virtuosos. E como nos lembra Wolff, a virtude do homem é a capacidade que ele tem de comandar os outros homens.

Com o surgimento da Polis, a ênfase passou da ação para o discurso e esse como meio de persuasão, daí, como lembra Wolff, a palavra política, ou negócios da polis. Tudo era, então, resolvido pelo poder do discurso e não pela violência. De acordo com Aendt, para os gregos o uso da violência, na tentativa de forçar alguém à algo, ao invés de persuadi-la, era um modo pré-político de agir, modo esse, utilizado, principalmente, por aqueles que se encontravam fora da Polis. Era característico da família ou dos povos bárbaros da Ásia, que tinham poderes incontestes e eram despóticos.

A autora, ao explicar o pensamento de Aristóteles em relação a fala, diz que para ele, os escravos e bárbaros, não eram desprovidos da capacidade de fala, mas sim da eloquência e da capacidade de utilizar a fala como meio de persuasão.

Segundo a autora, as Cidades-Estado e a Esfera pública surgiram às custas da esfera privada e do lar. Para ela, o que impedia a Polis de violar as vidas privadas de seus cidadãos era o fato de que, sem a propriedade privada, o cidadão não possuía o direito de participar da Polis, visto que não tinha lugar algum que lhe pertencesse.

Enquanto a família era a necessidade de perpetuação e, portanto, uma obrigação, a Polis era a esfera da liberdade e a relação entre as duas esferas se dava na vitória sobre a necessidade da vida em família, constituindo a condição natural para a liberdade. Nesse caso, a liberdade surge na esfera social, cabendo a força e a violência, ao Estado.

Com o surgimento do Estado Nacional, percebe-se mudanças em relação a formação de uma sociedade política. Enquanto, na antiguidade, existia, basicamente, a esfera pública e a privada, agora, o conjunto de famílias economicamente organizadas, constituindo algo como uma única família sobre-humana, cria o que é chamado Nação.

E na política moderna, o abismo existente entre a esfera social e política deixa de existir. A ação, o discurso e o pensamento passam a ser superestruturas sociais.

Nas sociedades de massa, a ação deu lugar a um certo tipo de comportamento que, imposto, estabelece regras afim de normalizar os cidadãos, tirando desses a ação espontânea ou a reação inusitada. O surgimento da sociedade de massas indica que os vários grupos sociais foram absorvidos por uma sociedade única com tal força que controla todos os seus membros da mesma maneira. E quanto maior a população, mais chances de que o social, e não o político, constitua a esfera pública.

Quanto maior é a população, maior é a chance de que essa se comporte e não admita o não-comportamento se submetendo e aceitando pacificamente a rotina de sua própria existência.

Para Arendt, a sociedade constitui o próprio processo vital, pois, em pouco tempo, a nova esfera social transformou todas as comunidades modernas em sociedades do labor, gerando a dependência mútua dos indivíduos em prol da subsistência do grupo. O aumento constante e acelerado do labor pode ser visto com maior precisão a partir da divisão do trabalho que precedeu a revolução industrial e a sua consequente mecanização.

A esfera pública, enquanto mundo comum, reúne a todos, mas impede que nos choquemos. Na sociedade de massas, essa situação deixa de existir. Os indivíduos não possuem nada que os separe, porém, ao mesmo tempo, não tem relação entre si. Nessa sociedade, todos se tornam inteiramente privados de ver e ouvir os outros ou de serem vistos e ouvidos por eles.

ARISTÓTELES. A política. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p.01-06 e 53-64.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,

2004, p.31-88.

WOLFF, Francis. Aristóteles e a política. São Paulo: Discurso Editorial, 1999, p.07-34

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2 pensamentos sobre “Em tempos de crise política, um grego

  1. Só consegui ler agora, Muito bom, ja visse o filme da hannah arendt?

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