Marx, eu e a minha alienação

Deixe um comentário

13 de julho de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

alienação-do-trabalhoEm 2005, ainda um garoto de 17 anos recém-chegado à universidade, estudante do curso de história, ainda virgem na teoria marxista, havia algo que não me parecia certo. Passava o dia inteiro no chão de fábrica separando objetos que não me pertenciam e que seriam vendidos por outras pessoas que também não eram seus donos e, a noite, discutia o desenvolvimento histórico-social do qual eu também fazia parte, mas não percebia.

Hoje, quase 10 anos depois, com milhares de linhas a mais na minha mente, com o amadurecimento e com o afastamento histórico, vejo as coisas com outros olhos. Nas palavras de Marx, “o trabalhador decai a mais miserável mercadoria” e eu era parte dessa miséria.

Marx, segundo Aron, foi genial ao conseguir juntar dois modos de análise que ninguém mais conseguiu. Ele analisou o funcionamento de um certo regime econômico, explicando a transformação histórica desse regime partindo das leis de funcionamento existentes nele. A partir daí, então, comecei a compreender o meu papel enquanto agente participante, de forma alienada, desse regime político.

Segundo o jovem Marx1, de 1844, nos Manuscritos Econômico-filosóficos, quanto mais riquezas produzem os trabalhadores, mais pobres eles se tornam, mesmo com a produção aumentando em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria cada vez mais barata e dispensável conforme mais mercadorias ele cria. E quanto mais ele produz menos ele adquire. Além disso, a partir do momento em que surge a mercadoria, o objeto transforma-se numa coisa a um tempo palpável e impalpável, apresenta-se de maneira fantástica, a qual o autor dá o nome de fetichismo.

Esse processo é definido por Marx como exteriorização do trabalho. Nele, o trabalho não pertence a essência do trabalhador e, portanto, ele não se afirma, mas se nega em sua atividade, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve energia mental e física livre, mas se mortifica e arruína a sua mente. O trabalho deixa de pertencer ao trabalhador e passa a ser de um outro e ele, o trabalhador, deixa de pertencer a si mesmo, se torna de um outro. Nesse sentido, a pobreza é o elo que faz o homem sentir a necessidade da maior riqueza, o outro homem. Ou, nas palavras de Aron, a alienação do trabalho é o trabalhador produzindo um objeto transformado em mercadoria, que não lhe pertence como produtor nem pertence a quem o adquire.

Para o Jovem Marx, o trabalho, antes da alienação, é a atividade vital do homem. Ele é a vida produtiva, um meio para satisfazer a necessidade de manutenção da existência física. A atividade consciente e livre é a vida engendradora de vida. Para ele, o homem é o único que forma os objetos segundo as leis da beleza. Portanto, é trabalhando o mundo objetivo que o homem se prova como um ser genérico e a natureza aparece como a sua obra e realidade efetiva. Ao arrancar do homem o objeto produzido por ele, o trabalho alienado lhe arranca, também, a vida genérica, a objetividade genérica real. Aliena do homem o seu próprio corpo, tal como a natureza fora dele, tal como a sua essência espiritual, a sua essência humana. De acordo com Aron, no sistema industrial moderno, não se trabalha por prazer, mas sim para ganhar um salário que não é mais que suficiente para adquirir os itens essenciais à vida.

Certo dia, lá em 2005, enquanto empurrava meu carrinho de separação de materiais, alguns colegas me disseram. “Está vendo aquele ‘cara’ ali? Ele é o chefão, o que comprou a empresa.”. Tal conversa esclarecia uma dúvida que me corroía por dentro e que, foi de encontro ao questionamento do autor alemão. “Se a minha própria atividade não me pertence, sendo uma atividade alheia obtida por coação, a quem pertence então?”, para Marx, se a atividade exercida pelo trabalhador lhe é um tormento, então deve ser a alegria de viver de um outro, pois a auto-alienação só pode aparecer através da relação real com outros homens. Para Aron, esse é a terceira aplicação para o conceito de alienação utilizada por Marx. Nela, os homens não têm relações diretas uns com os outros, todas as suas relações são mediatizadas por mercadorias ou por aquilo que é equivalente as mercadorias, o dinheiro.

Em O Capital, o “maduro” Marx diz que, desde que os homens trabalham uns para os outros, o trabalho adquire uma forma social. As relações entre os produtores, nas quais se afirmam as determinações sociais dos seus trabalhos, adquirem a forma de uma relação social dos produtos do trabalho. Essa relação social determinada entre os próprios homens adquire aos olhos deles a forma de uma relação entre coisas, a forma-mercadoria. Nela se apresenta as características sociais do trabalho como se fossem características objectivas dos próprios produtos do trabalho.

A existência humana é uma atividade social. O que faço de mim, faço para a sociedade e com a consciência de que sou um ser social.

O trabalho social se dá, então, a partir do conjunto dos trabalhos privados. Os produtores, no entanto, só entram em contacto social pela troca dos seus produtos, tornando as relações sociais dos seus trabalhos privados, não entre pessoas nos seus próprios trabalhos, mas como relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas. O que interessa aos que trocam produtos é saber quais e quantos produtos alheios obterão em troca. Para Marx, quando estas proporções tornam-se fixas, habituais, elas passam a parecer como provindas da própria natureza dos produtos do trabalho.

Em O Capital, Marx propõe que o valor de troca dos objetos é uma propriedade das coisas, enquanto o valor de uso é propriedade do homem. O valor, neste sentido, pressupõe, então, a troca, e não a riqueza.

Sobre a propriedade privada, o jovem Marx, com pouco mais de um ano de estudos econômicos apenas, propôs que ela é resultado do conceito de trabalho exteriorizado, ou seja, de homem exteriorizado, de trabalho alienado, de vida alienada, de homem alienado. Para ele propriedade privada e salário são idênticos, pois o salário é só uma consequência necessária da alienação do trabalho, e o trabalho aparece não como fim em si, mas como o servo do salário. Dessa forma, mesmo a igualdade salarial não seria suficiente para transformar a relação do trabalhador com o seu trabalho na relação de todos os homens com o trabalho. A sociedade é então, segundo o autor, tomada como capitalista abstrato.

A propriedade privada, portanto, enquanto expressão material do trabalho exteriorizado, abrange as relações do trabalhador com o trabalho e com o produto do seu trabalho e com o não-trabalhador e a relação do não-trabalhador com o trabalhador e com o produto do trabalho deste.

O comunismo seria, então, a expressão positiva da propriedade privada, como propriedade privada geral estendida a todos os homens. Como superação do Estado e, simultaneamente com o seu ser inacabado e sempre ainda afetado pela propriedade privada, isto é, pela alienação do homem.

Ainda de acordo com o Manuscritos Econômico-filosóficos, o comunismo como superação positiva da propriedade privada enquanto auto-alienação humana é, por isso, a apropriação efetivamente real da essência humana pelo e para o homem. A superação da propriedade privada é a emancipação das propriedades e sentidos humanos e só o é pelo fato de estes sentidos e propriedades terem se tornado humanos, tanto subjetiva quanto objetivamente.

Depois de quase 170 anos da produção dos Manuscritos Econômico-filosóficos, a obra de Marx permanece atual. Assim como eu, milhões de trabalhadores em todo o mundo se encaixam no conceito de trabalho alienado, sem ter essa percepção. Mudaram algumas relações entre o trabalhador e o não-trabalhador, mas quando pensamos em grandes multinacionais que atuam em países periféricos, por exemplo, vemos algo muito parecido com os dias em que o autor alemão escrevia. Fora isso, as mudanças não são suficientes para construir um novo sistema econômico e, geralmente, se dão apenas no âmbito salarial. A produção e as relações continuam comandando o homem em vez de serem por ele comandadas.

Em um país em que, cada vez mais, o fundamentalismo religioso, pautado em um sistema mercantilista onde quem paga mais garante o melhor lugar no céu, ganha espaço a fala de Marx ao tratar a relação da religião com o trabalho que se torna tão apropriada quanto os próprios conceitos de trabalho alienado utilizados por ele. O reflexo religioso do mundo real só desaparecerá quando as condições do trabalho e da vida prática apresentarem relações transparentes e racionais entre os homens e entre os homens e a natureza. A vida social só se libertará da nuvem mística que a envolve, no momento em que ela se apresente como o produto de homens livremente associados, agindo conscientemente e senhores do seu próprio movimento social. Ou seja, quando formos capazes de abandonar a síndrome de cordeiro existente entre os religiosos. Porém, isto exige uma base material da sociedade, que só pode ser produzida por um longo e penoso processo de desenvolvimento.

1Segundo ARON, 1962, o trabalho de Marx está dividido em dois momentos: o “jovem” e o “velho” Marx. Para ele, existe uma obra produzida pelo autor alemão antes e depois de 1844. Marx, ainda com pouco conhecimento econômico, teria escrito o Manuscritos Econômico-filosóficos e o abandonado logo depois e, em O Capital, teria produzido um conteúdo mais maduro e bem resolvido. Porém, quando lemos, tanto a primeira obra quanto a segunda, de fato, há diferenças visíveis, mas o tema central permanece. O texto do jovem Marx, identifica o trabalho alienado como transposição da vida do trabalhador para o objeto, enquanto o Marx maduro trata do fetichismo da mercadoria, assuntos que, na minha opinião, se complementam. Não existiria, portanto, uma ruptura no pensamento, mas sim um amadurecimento de um mesmo tema que permeia toda a obra do autor alemão.

Anúncios

Degluta conosco...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Capitão Barba Ruiva, a sua livraria virtual

Capitão Barba Ruiva a melhor opção em livros

Baú

O que tem pra hoje?

julho 2013
S T Q Q S S D
« jun   ago »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Leitores

Nós que aqui estamos, por vós esperamos.

  • 114,565 pessoas já nos viram

Medalhas do blog

%d blogueiros gostam disto: