Uma lua crescente, uma estrela e uma bandeira vermelha…

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6 de junho de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

0706886A partir dessa semana os livros de história deverão ser reescritos. Aquela parte (muito pequena, diga-se de passagem) que fala sobre a revolução islâmica, sobre a formação do Oriente Médio e que, geralmente, coloca todos aqueles países no mesmo saco, dá uma chacoalhada e os apresenta como sendo todos iguais, terá de ser revisto.

O certo é que, depois da Primavera Árabe, muita coisa mudou naquela região, mas havia um país que parecia não ser abalado por todas aquelas revoltas e manifestações de descontentamento, algumas insufladas pelo Estados Unidos e pela União Europeia que tinham seus próprios objetivos na região, como na Líbia, por exemplo. Esse país era a Turquia.

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Isso até a última semana quando, no dia 29 de maio, as coisas começaram a mudar e ninguém podia prever o que estava por vir. Da noite para o dia cerca de 50, das 80 cidades do país, se levantaram contra o governo conservador do presidente Abdullah Gül e do primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan. O que, aparentemente era uma nação calma e sem problemas com o governo, na verdade precisava apenas de um estopim para demonstrar o que sentia e ele veio quando um grupo de pessoas sem ligações político-ideológicas específicas se reuniram no Gezi Park, em Istambul. Segundo Sevinç Özgen, uma das manifestantes presentes na primeira noite de ocupação, da praça Taksim, “haviam representantes de sindicatos, ecologista, estudantes e fãs das três grandes equipes de futebol da cidade, criando slogans criativos e engraçados, além do apoio dos movimentos de esquerda”.

O que eles queriam era evitar a demolição do parque, que fica no centro da cidade para a construção de um shopping. Como a ela deveria começar no início da manhã de quinta-feira, na quarta-feira, 29/05, as pessoas foram com seus cobertores, livros e crianças, montaram as tendas e passaram a noite sob as árvores. No início do dia seguinte, quando os tratores iniciaram a derrubada das plantas centenárias, os manifestantes se levantaram na tentativa de interromper a operação. Nenhum veículo da imprensa turca estava lá para cobrir o protesto. Mas ainda haviam as redes sociais.

A polícia expulsou os manifestantes com bombas de gaz lacrimogênio e spray de pimenta. Durante a noite a multidão voltou em maior número. Em resposta o governo de Istambul isolou o parque fechando as linhas de metrô que conduziam até o local, balsas foram canceladas e ruas bloqueadas, além disso o número de policiais foi multiplicado. O que os governantes não esperavam eram ver milhares de pessoas cruzando a ponte sobre o Bósforo, que divide a cidade, a pé e forçando os policiais a retrocederem ao mesmo tempo em que, como um rastilho de pólvora as manifestações se espalhavam pelo país. Várias cidades aderiram ao movimento que deixava de ser apenas em defesa de um parque, e tornava-se contra as medidas de Erdogan, consideradas autoritárias pela população de um dos países mais seculares do mundo, além do apoio dado pelo primeiro-ministro a OTAN contra a Síria.

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Marcas das agressões sofridas por Mert Can Yilmaz no último dia 1º/05

Segundo Defne Suman, outra moradora de Istambul, “escolas, hospitais e até hotéis cinco estrelas em toda a Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a pulverizar pessoas inocentes com gás lacrimogêneo e abandonaram seus postos. Ao redor da praça foram instalados aparelhos para evitar o acesso à internet e as redes 3G foram bloqueadas, então moradores e empresas da região cederam suas redes wi-fi para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.”

Em Ankara, na noite de sexta-feira, mesmo com os sucessivos cortes de energia que dificultavam a organização dos protestos que seriam feitos na cidade no dia seguinte, a população começava a se preparar para parar a capital do país. No sábado milhares lotaram as ruas em resposta a repressão que ocorreu em Istambul e assim foi por dezenas de cidades. A população saiu de suas casas com a bandeira do país prontos para defender a opinião e a liberdade que possuem.

Cansada, mas feliz pelo aumento da luta pela causa.” Nos contou Rukiye Çakir, moradora de Izmir, terceira maior cidade da Turquia com cerca de 4 milhões de habitantes. Conversamos com ela as 18h48 no Brasil, 00h48 na Turquia. “A mídia, está tranquila. TV, canais, etc, nos ignoram, mas ainda estamos de pé no ringue
e com as pessoas na rua vamos até o amanhecer.” completou.

Até as 21h00 de quarta-feira, 04/05, a Associação médica turca já contabilizava 4.177 pessoas atendidas por lesões, 2 mortos, 43 feridos com lesões graves, 3 manifestantes em estado grave, 15 tiveram traumatismo craniano e 10 ficaram cegos devido ao spray de pimenta ou o gaz lacrimogêneo.

40

Estudantes de medicina turcos atendem os feridos nas passeatas de forma voluntária

Turkish Medical Association Central Council

City Total Injured Applied Severe Injuries (Intensive care included) Death Explanations
Istanbul 1505 (880 hospitalized + 625 in voluntary clinics) 12 1 inpatient 26

intensive care 5

life critical 2 (head trauma)

5 blinded

Ankara 1088 (788 hospitalized + 300 in voluntary clinics) 19   (6 head trauma, 3 sight loss, 1 person in life critical status)
İzmir 800 2    
Antakya Data will come   1  
Adana 117 5   5 head trauma
Eskişehir 300 3   2 intensive care, 1 head trauma
Muğla 50 1   1 risc of entire loss of sight
Mersin Data will come      
Denizli        
Malatya        
Bursa 2     Head trauma
Balıkesir 155      
Amasya        
Erzurum        
Sivas-Erzincan        
Trabzon        
Bartın        
Diyarbakır        
Zonguldak        
Samsun Data will come      
Kocaeli 10      
Tekirdağ        
Manisa        
Antalya 150 1   1 person lost eye
Mardin        
Batman        
Çanakkale Data will come      
Afyon        
Edirne        
Bolu        
Çorum        
Aydın        

Segundo Kivicim Safak Bescanlar, moradora de Ankara, o “governo cortou as transmissões de câmeras de vigilância nas ruas. A imprensa nacional está evitando dar relatórios sobre a ação da polícia nos protestos. Está sendo como ir para a caçada usando o poder excessivo e atacando sem piedade. As pessoas estão usando as redes sociais, como Twitter e Facebook para compartilhar e comunicar os outros. Isso mostra claramente a atitude autoritária do governo sobre as pessoas e ideias. Começou com Gezi Park, mas em seguida, fomos contra a atitude repressiva do governo contra o povo. Regulamentações restritivas, apresentadas pelo governo como limitação do consumo de álcool, as limitações à liberdade de expressão e a proibição do aborto são apenas alguns deles”.

E a luta continua. Em Istambul a população está em pé-de-guerra com a polícia, erguendo barricadas, usando paus e pedras contra canhões de água, balas (não só as de borracha), bombas de gaz lacrimogênio e spray de pimenta. Em Ankara o povo está nas ruas enfrentando os militares. Em Izmir, homens e mulheres passam dia e noite ocupando os espaços públicos. Em todo o país a luta continua. O vermelho toma conta com a sua lua crescente e sua pequena estrela. Enquanto isso, no país do futebol, a mídia dá uma hora de visibilidade para o Neymar e 30 segundos para os turcos.

Mais informações aqui http://migre.me/eSIUy, aqui http://migre.me/eSISk e aqui http://vimeo.com/67523930. Siga-nos no facebook e tenha mais informações http://migre.me/eSIZ8.

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