Educando uma criança em um mundo tão bom. Não, pera, só que não.

1

30 de maio de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe427273_423699264379090_1925993822_n

preconceitoMeu filho não nasceu menina, eu até queria, mas veio um guri rechonchudo. Por isso, não tenho de me preocupar quando ele sair de noite porque, além de ser assaltado poderá ser estuprado. Não vou ter de ouvir dizer que ele quer ser atacado porque usa a roupa tal ou porque está no bar tomando cerveja com @s amig@s.

Meu filho é branco, não terei que vê-lo, portanto, sendo discriminado na fila de emprego por causa da cor da pele dele, não precisarei me indignar porque a competência dele não foi medida, porque o branco foi contratado, afinal de contas “o preto vai roubar a empresa na primeira chance”.

Meu filho tem olhos verdes, tem “boa aparência”, não corre o risco de ser recusado ou ridicularizado porque a imagem dele não é o perfil, o padrão de beleza estabelecido.

Talvez a orientação religiosa dele seja um problema, mas, por enquanto, ele não é um muçulmano vivendo em um país cristão ou judeu e nem um judeu ou cristão vivendo em um país muçulmano, ou um ateu em um país evangélico. Portanto, ainda não há preocupações nesse sentido.

Ele ainda não tem a sexualidade definida, talvez seja homossexual ou bissexual, aí eu terei de me preocupar com as lâmpadas fluorescentes, com os seguranças de boates e com o bullying na escola. Ou pior, talvez seja hétero e apanhe por estar abraçado comigo na rua, afinal de contas, não pode existir nenhum tipo de amor entre dois homens. Não deve haver nada mais terrível do que ver seu filho sendo agredido sem poder fazer nada.

Eu sou classe média, levo uma vida tranquila. Sempre na batalha, mas não tenho grandes necessidades econômicas. Meu filho não será discriminado por ser pobre. Provavelmente nem será parado pela polícia na rua, se estiver portando drogas será chamado de usuário, nunca de traficante.

Bom, ele é menino, branco, bonito (dentro do padrão de beleza ocidental), classe média. Parece ótimo, parece fácil, parece simples. Não é!

Como educar uma criança em um mundo feito de preconceito? Outro dia o Vini chegou em casa dizendo que não gostava mais da avó porque a pele dela é escura. De algum lugar ele tirou isso, mas de onde? De casa é que não foi. Ele frequenta duas instituições: a família e o Centro de Educação Infantil (CEI). Tem contato comigo e com a mãe dele; com as professoras e os coleguinhas de sala de aula. De onde veio essa fala, portanto? De outras crianças da mesma idade que ele. Todas com, no máximo, cinco anos e que, evidentemente, reproduzem aquilo que vêm e ouvem em casa.

Conversei com ele, expliquei que a cor da pele não tinha nada de errado que era normal, dei uma aula de história (nos termos que uma criança de cinco anos possa entender) e achei que tinha resolvido o problema. Passaram-se alguns dias e ele repetiu a mesma coisa. Mesmo processo de explicação e, até agora, tudo bem.

Mas como se fazer entender quando, além de ouvir falas preconceituosas, o que ele vê na TV são pessoas brancas e “bonitas”. Não só na programação normal, mas também na infantil. Na Liga da Justiça, por exemplo, cheia de heróis, apenas um entre os principais é negro (Lanterna Verde) e somente uma mulher faz parte desse grupo (Mulher Maravilha). Nos livros infantis a BRANCA de Neve é linda, a Rapunzel, com suas tranças cor de mel, também. O que nos leva a outro problema: o sexismo.

Nos desenhos animados o herói é quase sempre homem, nos liros infantis o papel da mulher é o de princesa indefesa esperando o príncipe encantado vir salvá-la. Quantas vezes ouvi o meu filho dizer que tal brincadeira não era de menina? As crianças são condicionadas a serem mulheres que ficam cuidando da família e homens que devem sustentar a casa. O meu filho adora brincar de cozinhar (talvez porque ele adore comer), mas como encontrar brinquedos assim para meninos? Enquanto o Vinicius brinca com miniaturas de carros e caminhões, com bonecos que atiram e voam, a minha sobrinha tem um fogão, um rodo e uma vassoura de brincadeira.

Na sala de aula, enquanto leciono, a disparidade entre classes sociais é evidente. Os alunos com menor poder aquisitivo, em sua maioria, têm notas mais baixas, além disso têm uma relação muito mais próxima com a criminalidade. Geralmente são discriminados e sofrem bullying.

Quanto a sexualidade, por várias vezes ouvi o Vinicius dizendo que um homem não pode namorar outro homem e uma mulher não pode namorar outra mulher. A mesma conversa sobre a cor da pele. Só que dessa vez tentando explicar que, mesmo que digam o contrário, toda forma de amor é valida, que não há problema nenhum em relacionamento entre pessoas do mesmo sexo.

Obviamente, não é o mesmo que educar aqueles que sofrem com todas essas formas de preconceito. Como diz o ditado: “A grama é sempre mais verde no terreno do vizinho”. Destruir esse mundo preconceituoso na tentativa de criar um melhor, com adultos que saibam respeitar a diferença é uma meta difícil de ser alcançada e eu nem tenho essa pretensão, mas é possível preparar aqueles que serão capazes de ir mais longe nesse intento.

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Educando uma criança em um mundo tão bom. Não, pera, só que não.

  1. Mônica. disse:

    Pode ter certeza, a coisa está melhorando, pode parecer demorado, mas aos poucos vai mudando. Eu, você, nossos amigos mais chegados já estamos educando nossos filhos com outra mentalidade e o efeito só pode ser diferente das gerações passadas.

Degluta conosco...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Capitão Barba Ruiva, a sua livraria virtual

Capitão Barba Ruiva a melhor opção em livros

Baú

O que tem pra hoje?

maio 2013
S T Q Q S S D
« abr   jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Leitores

Nós que aqui estamos, por vós esperamos.

  • 119,952 pessoas já nos viram

Medalhas do blog

%d blogueiros gostam disto: