Então o seu João cresceu e virou comunista

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21 de maio de 2013 por deglutindopensamentos

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bandeira_PCBContinuando o texto sobre um ilustre quase desconhecido da cidade, mas que em breve terá sua identidade e história revelados. Como sempre, os nomes aqui citados são fictícios para preservar os verdadeiros personagens.

Desde os treze anos, principalmente após a morte do presidente Getúlio Vargas, seu João se interessava pela política. Sempre xeretando aqui e ali, lendo livros sobre o assunto na biblioteca pública da cidade, perguntando para um e para outro, queria descobrir algum grupo organizado que lutasse contra a injustiça e a desigualdade. E foi no Partido Comunista que ele encontrou essas pessoas. Sempre chegava alguém que dizia:

– Olha, lá naquele hotel tem um garçom que é comunista, vai lá e fala com ele.

João não pensava duas vezes e saía correndo para conhecer o tal comunista. Era sempre uma decepção pois, o garçom, o motorista, o vendedor, não conheciam o partido e nem podiam ajudar o rapaz.

A ajuda veio de onde menos se esperava. Enquanto trabalhava em um grande laboratório farmacêutico, em meio as belas operárias e aos jovens trabalhadores, que se reuniam no refeitório da empresa para conversar e contar piada, João conheceu Belmiro Coelho, um senhor sempre quieto, que estava sempre sozinho durante o almoço, e não possuía muitos amigos.

Os rapazes disputavam para ver quem iria falar com aquele que, diziam, sabia de tudo.

  • Olha, se você quer saber alguma coisa, vai lá e pergunta para aquele “cara”. Ele sabe de tudo, é uma enciclopédia humana. – Disse certa vez José Paulo, colega de João.

  • Está bem, mas o que eu vou perguntar pra ele? – Respondeu João.

  • Vai lá e pergunta o que é maçonaria. Eu tenho muita curiosidade em saber o que é isso.

O garoto estufou o peito, tomou coragem e foi fazer a pergunta. De longe os colegas de trabalho observavam curiosos querendo saber o que aquele homem misterioso iria dizer.

João se aproximou, pediu licença, se apresentou e sentou-se à mesa com Belmiro que olhava para o garoto intrigado, sem entender o que estava acontecendo.

  • Então Seu Belmiro, eu ouvi dizer que o senhor é uma enciclopédia ambulante, que sabe de quase tudo e eu tenho uma grande curiosidade…

  • Você, ou os seus amigos? Respondeu o homem olhando diretamente para os colegas de João que o aguardavam na outra mesa e que, ao perceberem que tinham sido “pegos em flagrante” desconversaram e olharam para os lados, incapazes de conseguirem disfarçar.

  • É… Uma curiosidade nossa. A gente queria saber se o senhor sabe o que é maçonaria.

  • E por que vocês querem saber isso?

  • É que a gente ouviu falar e queria descobrir o significado disso.

  • Bom, maçonaria é uma organização secreta que busca o lucro junto a todos os seus participantes indiferentes a sociedade em que vivem.

João não entendera nada, mas voltou dizendo o que tinha ouvido aos colegas.

No dia seguinte, José Paulo pediu a João que perguntasse o que era comunismo.

  • Porra, por que que tu não vai?

  • Ah! Vamos tirar no par ou impar então.

Curiosamente, João sempre perdia na disputa de sorte. Lá foi o garoto novamente.

  • Seu Belmiro, o que é comunismo?

A expressão nos olhos daquele homem deixava claro que o assunto era inconveniente. Ele enrolou o garoto e não respondeu a pergunta.

  • Pois é, mas eu sei que ele é comunista! – Exclamou José Paulo quando ouviu a resposta.

  • Por quê? Perguntou João.

  • Não sei… É que eu já conversei com ele e ele é diferente dos outros.

O que os jovens não entendiam é que no inicio da década de 1960 o Partido Comunista Brasileiro ainda estava na ilegalidade e qualquer um que se dissesse comunista teria problemas com a justiça.

Dias depois daquela conversa, João recebeu um convite inesperado. Belmiro o convidou para um almoço de domingo na casa dele, passou o endereço e deixaram combinado o horário.

No domingo, o garoto pegou a inseparável magrela. A bicicleta que, na época, era o principal meio de transporte da população joinvilense lhe garantindo, inclusive, a alcunha de “Cidade das bicicletas”, e seguiu para o endereço combinado.

Pedalando pela João Colin, principal avenida joinvilense, em uma época em que se podia passear tranquilamente pelas ruas da cidade pois, ainda não haviam os milhares de veículos circulando diariamente emitindo gazes tóxicos. O que se via, por todos os lados eram as senhoras conversando em alemão, os trabalhadores passeando com seus filhos, indo em direção ao centro da cidade para levá-los a praça Dario Sales, onde havia um parquinho e a garotada se divertia nas tardes de domingo. Em meio aquele ambiente bucólico João chegou ao local estabelecido para a tão esperada conversa.

Em certo ponto da discussão, Belmiro revelou o verdadeiro motivo do convite.

  • João, eu sou comunista, e o partido, aqui em Joinville, existe e tem mais pessoas além de mim. Se você quiser entrar…

  • Já entrei!

  • Nós vivemos na clandestinidade. Somos muito poucos, se quisermos enfrentar esses alemães aí, que são um monte e ainda estão cheios de grana, agente vai perder. Por isso o nosso trabalho é na surdina, por debaixo dos panos. A gente acolhe comunistas de outras cidades, quando esses passam por aqui, fazemos o trabalho na base, conversando com os operários, mostrando a eles a exploração em que vivem. É assim que a gente age.

O convite foi estendido a José Paulo que nunca se filiou, mas estava sempre presente nos cursos realizados pelo partido. Ele se tornou um quadro importante entre os comunistas joinvilenses quando começou a trabalhar na Fundição Tupy. Maior fundição da América Latina, a empresa, já nos anos 1960 possuía centenas de funcionários e, entre eles, várias possíveis lideranças partidárias, cabia a José, portanto, identificar essas pessoas e convidá-las para participarem das reuniões da militância.

Enquanto João ia seguindo os rumos do Partido Comunista Brasileiro, na vida ele também trilhava novos caminhos. Era fins dos anos 1950 e, enquanto começava a trabalhar como bancário, uma outra revolução, de proporções inimagináveis à época, estava acontecendo em um pequeno país da América Central. No Caribe, os moradores da ilha de Cuba se levantavam em armas contra um governo ditador financiado pelos Estados Unidos e eram acompanhados por militantes no mundo todo. Em Joinville, os simpatizantes dos revolucionários conseguiram sintonizar a rádio Sierra Maestra, território livre de la América, que transmitia os ideais guerrilheiros de Fidel Castro, Raul Castro, Camilo Cienfuegos e Hernesto Chê Guevara, o que lhes dava ainda mais vontade de lutar pelos objetivos comunistas.

Mas essa é uma história para outro dia…

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