O ser e o plástico

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27 de abril de 2013 por deglutindopensamentos

Jana Lübke

foto-galeria-materia-620-e2Parada no sinal, desconectada da mesmice do mundo exterior, absorta em pensamentos sóbrios, uma imagem da rua me desperta para fora: um mendigo (ou o que o meu preconceito julgou ser um mendigo) atravessa a faixa, puxando cuidadosamente por uma cordinha um cão feito de garrafas plásticas recicladas. Ele tenta não machucar seu amigo: as calçadas não são adaptadas, o que exige do homem um zelo maternal, a fim de mantê-lo sem nenhum amassado.

No primeiro momento, achei muita graça: “Que coisa mais insana”, pensei. Claro, como não seria diferente do mesmo pensamento que acomete todos aqueles que se julgam “normais” e que estão muito satisfeitos por fazerem parte dessa bolha fictícia do cotidiano.

Esse conforto de ser como todo mundo sempre me traz em seguida uma náusea, rejeição por fazer parte da moldura ideal e, consequentemente, uma fascinação curiosa pelo esquisito. Muitas vezes, já estive flertando com aquilo que choca as pessoas de uma forma geral.

Pensei melhor, então, sobre o mendigo e seu fiel cão de garrafas pet. Comparei essa cena a muitas que vejo, de pessoas que se julgam extremamente corretas e caçam a normalidade com garras, mente e cartões de crédito, para serem iguais a qualquer custo.

O que ele estava fazendo? Nada mais que buscando uma companhia por medo da solidão, se rodeando de algo sem vida, plástico, ao mesmo tempo que submisso e constante. Um cão de plástico não foge, não morde, não sai por aí atrás de um belo filé ou de uma cadelinha com pelo macio.

E como agem tantas vezes os “prudentes” e sãos? Buscam relações ilusórias para não morrer de tédio e superficiais para não ter que suportar o risco de uma perda após se entregarem a sentimentos mais profundos.

Nós e o mendigo já sacamos que envolver-se com as vidas alheias pode ser perigoso, mais até do que estarmos presos e esquecidos em um quarto revestido de espelhos. E quantos por aí preferem relações feitas de garrafas recicladas e uma natureza-morta como companheira para escapar de si e para não enfrentar o outro real?

O sinal abre. Lamento as calçadas mais uma vez… que não são adaptadas nem para o cachorro de garrafas pet do mendigo. Sigo! E minha revolta não dura mais que um suspiro!

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Um pensamento sobre “O ser e o plástico

  1. Kaue disse:

    interessantíssimo, a forma como você colocou todo um texto num instante de sinal fechado realmente fez a diferença. Gosto desse estilo, a crônica sendo crônica em si mesma.

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