Quando um casal entrou em minha vida: o elefante e a pomba

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26 de março de 2013 por deglutindopensamentos

Pedro Magrini

fridaEsse casal chegou de repente e cativou minhas últimas semanas. A história, a arte e a performance conjunta e individual, se é que podemos ainda vê-los separadamente, me estimulou de uma forma nunca explorada em um pessoa antes refratária a arte da pintura. Diego Rivera e Frida Kahlo, o elefante e a pomba, apelido pejorativo dado pela mãe de Frida, inspiraram minha semana com uma trajetória de vida genial, revolucionária e conturbada. (In)Perfeito! Isso aconteceu quando comecei a buscar mais informações sobre a cultura mexicana e latino-americana em geral, afinal, em meados de julho me mudarei para a América do Norte (Sim, o México faz parte da América do Norte!) especificamente, na Cidade do México. Além da conjuntura sociopolítica da América Latina, das aulas de espanhol, das (re)descobertas musicais de Julieta Venegas e Molotov e da literatura de Octávio Pass, queria me interar mais sobre a arte daquele país. Obviamente, investiguei alguns filmes, arte que mais me toca e na qual sou mais sensível, no entanto, foi na figura de Frida Kahlo que o interesse pelo México se transformou em contemplação absoluta.

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Esse reconhecimento/admiração surgiu da leitura dos livros Frida Kahlo, Pinto minha a minha realidade de Christina Burrus, Frida Kahlo, suas fotos de Pablo Ortiz Monasterio e do filme Frida (2002) dirigido por Julie Taymor. Principalmente nas leituras, me encantei com a épica história dessa figura, andrógina, meio índia meio alemã, com uma estética inigualável. Uma história transcorrida junto aos principais acontecimentos do século XX, como a Revolução Mexicana, 1° e 2° Guerra Mundial, Grande Depressão estadunidense, entre tantos outros acontecimentos que efetivamente se entrelaçam com sua história pessoal. Frida teve uma vida extremamente sofrida e uma relação potente com Diego Rivera. Foi ai que o conheci. Seria impossível contar os inúmeros acontecimentos dessa relação. Atentarei-me a poucos, alguns daqueles que mais me tocaram, expondo algumas de suas obras, sem ter a pretensão de comentá-las, afinal, elas falam por si só.

Talvez o acontecimento mais trágico de sua vida, tenha sido o acidente de ônibus que sofreu quando ainda era adolescente e que a marcou para o resto de sua vida. Não somente pelas sequelas físicas que a pintora carregou durante todo o tempo, mas, sobretudo, por expressá-la em várias de suas obras. Como no quadro A coluna quebrada de 1944.

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Os abortos decorrentes da fragilidade de seu corpo pós-acidente, também foram acontecimentos que se tornaram tema de várias obras. Exemplo disso é o quadro O Hospital Henry Ford de 1932.

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Além desses e de inúmeros outros, fica evidente que os autorretratos hegemonizaram sua obra. Segundo ela mesma dizia: “Se pinto a mim mesma, é por ser o tema que melhor conheço”. Mas não somente, outros quadros espetaculares, sempre impactantes e comoventes, mostravam acontecimentos “cotidianos”, (1.Suicídio de Dorothy Hale de 1339), a diversidade social e cultural mexicana (2. Os quatro habitantes do México de 1939), algumas vezes em oposição as metrópoles dos Estados Unidos, país onde viveu durante anos (3. Autorretrato na fronteira com os Estados Unidos de 1932 e (4. Meu vestido está pendurado lá de 1933). São obras que unem acidez e fragilidade, são cativantes e cruéis, trazendo agonia e poesia de uma forma inigualável.

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Outro momento interessantíssimo e muito conhecido nessa trajetória foi o período em que Leon Trotsky se refugiou na casa do casal em meados da década de 1930, em um período em que eles estavam separados. Depois de sua fuga da União Soviética e de sua extradição da Noruega, Trotsky encontrou refúgio no México, exatamente na casa da família de Frida, com quem teve um pequeno relacionamento.

Mas e Diego Rivera? Excepcionalmente nesse texto, devido minha predileção por Frida e por uma limitação de conhecimento histórico de sua trajetória completa, ele estará às margens da narrativa. No entanto, sua vida foi tão incrível quanto à da mulher. Apesar do livro e do filme não serem sobre sua vida, parte importante é retratada. Já sendo um ícone em seu país quando conheceu sua terceira esposa, Frida, o muralista está gravado na memória mexicana, pois suas contribuições estão espalhadas por todo o México, com monumentais desenhos, sempre incorporando símbolos provocativos e desafiando uma sociedade elitista através de sua visão revolucionária. Reportarei-me a apenas uma de suas obras, das mais impressionantes, o mural Hombre en una Encrucijada de 1934.

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Esse mural esplêndido pintado no Museu do Palácio de Belas Artes da Cidade do México havia sido idealizado para uma das paredes do Rockfeller Center em Nova York, onde quase foi finalizado. Contudo, uma das imagens reproduzidas por Rivera, mudou o rumo dessa obra. Obviamente, a imagem de exaltação da Revolução Russa e do líder revolucionário Lênin não agradou a família Rockfeller, que tentou censurar a imagem, atitude veementemente negada pelo pintor que teve que ver sua obra-prima ser destruída. Felizmente, anos depois ele a reproduziu no México, local justo e perfeito para abrigá-la.

O texto já se alongou demais para o blog, mas ainda permanece reducionista para a história de Frida e Diego Rivera. São acontecimentos ínfimos que mostram pouco de uma trajetória incrível. Se escrevesse menos do que isso, me sentiria endividado no compartilhamento dessa história.

Bom, como sempre, fazendo uma indicação de filme, não poderia deixar de sugerir o filme Frida, mas este, com muitas ressalvas. Apesar de resgatar grande parte da vida de Frida e Diego, utilizando as obras da pintora de forma muito interessante, sempre as associando aos momentos vividos por eles, o filme exagera na adaptação e na “hollywoodização”, colocando uma protagonista excessivamente bela para os padrões hegemônicos, com pouca carga emocional e, além disso, brindando-nos (só se for com água suja) com diálogos em inglês carregados de sotaque latino-americano. BIZARRO e VERGONHOSO. Em alguns momentos me lembrei dos sotaques italianos das novelas da Globo. “Sim, é vero!” Esse fato por si só diminui a qualidade do filme. Contudo, descobri recentemente que há uma versão mexicana de 1984, Frida – naturaleza viva. Infelizmente, não tive tempo de ver essa versão, mas acredito que vale a pena procurar.

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