Algumas reflexões sobre o dia das mulheres, a prostituição e o feminismo

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11 de março de 2013 por deglutindopensamentos

Letícia Cardoso Barreto

9077636718468873_KKZk4MR7_c  Tendo recém passado o Dia das Mulheres muitas reflexões vieram também. Por um lado sobre o que este dia passou a representar, se aproximando cada vez mais de um dia dos namorados (repleto de caixas de bombons, flores e mensagens impessoais) e cada dia menos um dia de reconhecimento das conquistas feministas e de luta por mais direitos. Por outro lado, sobre afinal quem são as mulheres que merecem ser representadas por este dia e pelos diferentes movimentos feministas. A mulher que é lembrada é aquela que se mostra sensível, dedicada à família, que se entrega e, quando se valoriza seu trabalho, sua força, é justamente na sua capacidade de dedicação ao outro, muito mais do que na dedicação a si mesma, à busca por seus próprios ideais, à possibilidade de viver a vida como deseja, como lhe agrada.

Apesar de tantos avanços na nossa sociedade, continuamos ovacionando àquelas mulheres que parecem se submeter às normas. Homenagens a mães, namoradas, esposas, amigas, mas pouco se diz sobre as prostitutas, as vadias, as periguetes. As mulheres podem votar, podem se eleger, ocupar cargos importantes dentro de empresas, estudar, mas continuam sem poder decidir como se vestir, como se comportar, com quantas pessoas querem fazer sexo e sobre quais condições. Se isso é esperado numa sociedade machista como a em que vivemos (o que não significa, de forma alguma que não devemos lutar pela eliminação deste tipo de pensamento), o que mais me incomoda é ver posturas deste tipo vindas exatamente de feministas, de mulheres e homens que deveriam lutar pela nossa liberdade, pelo direito de agirmos como quisermos e ainda assim sermos respeitadas e termos acesso a todos os direitos.

Em 2012 participei da Marcha das Vadias em Belo Horizonte, movimento que tem entre seus objetivos principais a luta pela dissociação entre comportamentos femininos (usar roupas curtas, andar sozinhas) e violências sofridas. Foi uma Marcha maravilhosa, cheia de gente de diferentes idades, gêneros, classes sociais, movimentos. O que mais me encantou foi a abertura das articuladoras para as prostitutas e suas pautas (o que não havia acontecido no ano anterior), as incluindo em reuniões, lançando manifestos que questionassem visões estereotipadas, organizando oficina de cartazes na sede de sua associação. Do outro lado, integrantes da Marcha Mundial das Mulheres se incomodavam com sua presença, escreviam manifestos pela não mercantilização feminina, diziam que estavam associadas a cafetões (no caso, um grupo de donos de hotel que são dos poucos que, como elas, lutam pela manutenção do seu espaço de trabalho). Este grupo não queria as ouvir, saber sobre suas vidas, seus anseios, construir coletivamente propostas e ações, adotavam posturas em prol da “liberdade” delas, mas sem nunca lhes dar efetivamente voz, ao já partir do pressuposto de que são exploradas, violentadas, vendidas, sem as questionar sobre como percebiam o seu trabalho.

mulher de luta

Venho há alguns anos pesquisando a prostituição e, para além disso, construí com elas uma relação de proximidade e de troca muito grande em que conversamos bastante sobre as mais diversas questões. Uma questão que sempre destacam é que o que fazem é um trabalho. Como um trabalho, envolve várias coisas que observamos também nas nossas próprias ocupações. Por vezes são oprimidas, se sentem exploradas, por outras se sentem realizadas e satisfeitas com o que fazem; às vezes fazem exatamente o que querem e quando querem, em outros momentos executam tarefas menos prazerosas ou interessantes; algumas gostam do que fazem, outras estão ali pelo dinheiro, para sobreviver; tem aquelas que sonham em continuar na atividade por toda a vida, outras já sonham em juntar um dinheiro e poder fazer algo que gostam mais; como uma atividade que envolve o uso do corpo (como a maioria), nele sentem prazeres, mas também dores, cansaço.

Seus motivos para optar pela prostituição ou para se manter nela, são os mais variáveis, como na maioria dos trabalhos. Vão desde os mais pragmáticos como possibilidade de ganhar bem, necessidade de dinheiro para realizar algum sonho ou para realizar o sonho de algum dos seus familiares (normalmente os filhos), horários flexíveis (o que é muito vantajoso para as que são mães, por exemplo); até os menos pragmáticos como boa relação com as demais prostitutas, possibilidade de realização de práticas sexuais não aceitas pelos seus parceiros (como o sadomasoquismo), oportunidade de aprender mais sobre o próprio corpo e sobre como obter prazer (algumas contam que antes de se prostituir não haviam gozado e que hoje em dia chegam a gozar diversas vezes por dia, sabendo exatamente como atingir o gozo), se envolver em relações afetivas menos adequadas aos padrões considerados aceitáveis. Enfim, há uma infinidade de motivos, tanto para chegar à prostituição quanto para se manter nela.

Sabemos que na prostituição ainda há diversos problemas, mas considero que a maioria deles está vinculado ao fato de que, embora a atividade seja legal, todo seu entorno (casas, seus donos, cafetões) é ilegal. A ilegalidade insere a atividade num submundo em que é muito mais fácil haver tráfico de drogas, exploração, violência, uma vez que os locais acabam não sendo fiscalizados. Se os quartos de hotéis de prostituição têm condições ruins e até mesmo insalubres, muita coisa poderia ser mudada se fossem reconhecidos como local em que se desempenha uma atividade profissional, que poderia ser analisado por um sindicato ou mesmo pelo poder público. Se um cafetão se apossa de todo o dinheiro de uma prostituta, se um cliente diz que não vai pagar e a violenta, tudo isso poderia ser uma questão não de bate-boca interno, mas de direitos trabalhistas. Se as mulheres se sentissem exploradas, poderiam montar sua própria cooperativa, o que hoje seria considerado casa de prostituição e, consequentemente, ilegal.

marcha_vadias2011Por outro lado, muitas pessoas, incluindo alguns grupos feminsitas, afirmam que as prostitutas se vendem, não possuem oportunidades de se colocar e de ter autonomia no ambiente de trabalho. De fato, há uma questão de gênero que perpassa as relações homens e mulheres em que muitas destas não conseguem ainda se autodeterminar em seus relacionamentos afetivos se submetendo a violência, ao sexo sem prazer, ao controle de seu comportamento, dentre tantas outras coisas. Algumas prostitutas, também se sentem assim, mas muitas outras se sentem mais autônomas na zona do que fora dela, dizendo que ali constroem as regras, se colocam, definem os limites. Em um projeto que participei no ano passado, algumas das bolsistas da graduação, se espantaram tanto com a quantidade de autonomia das prostitutas neste caso que começaram a questionar os seus próprios relacionamentos afetivos, pensando que talvez elas é que estavam sem liberdade. Esta questão não se restringe, obviamente, à prostituição, sendo necessário um trabalho bem mais amplo, que efetivamente altere as relações de gênero em âmbitos maiores.

Não queremos trazer uma visão maniqueísta, estereotipada ou idealizada da prostituição, muito pelo contrário, o que pretendemos aqui é mostrar bem rapidamente um pouco desta realidade e propor que busquemos soluções, enfrentamentos, resistências que condigam com elas e com as mulheres que a executam. Demandamos ao feminismo que se atente a suas vozes, que as ouça com paciência, sem preconceitos, sem estereótipos. Se querem mesmo ajudar as prostitutas, que lutemos pela descriminalização do seu entorno, que lutemos pela redução das formas de opressão e de violência, mas sempre tendo em mente que muitas das prostitutas não querem que se elimine a atividade, mas que esta se torne cada vez mais digna e reconhecida como legítima. Não querem ser resgatadas, querem ser incluídas no debate, querem pautar as discussões sobre seu destino, sua vida, seu trabalho.

Para o próximo Dia das Mulheres, desejo que todas as pessoas tomem consciência de que há múltiplas formas de ser mulher e de se colocar no mundo e que cada uma delas deve ser respeitada e ter todos os direitos assegurados. Desejo um feminismo que não salve ninguém, mas que se construa por todas e que aceite, a todo o momento, se reinventar para ecoar a voz de todas nós.

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Letícia Cardoso Barreto – Psicóloga (UFMG), mestre em Psicologia (UFMG), Doutoranda em Ciências Humanas (UFSC), feminista.

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2 pensamentos sobre “Algumas reflexões sobre o dia das mulheres, a prostituição e o feminismo

  1. carlos alberto disse:

    Eu tbm tive a oportunidade de trabalhar com essas mulheres, no projeto elas eram denominadas profissionais do sexo, e foi muito gratificante, pelo menos para quem depois veio a ser psicólogo. Na época eu era um educador social em um projeto chamado “Casinha”, de uma ONG que atendia um público de soros positivo. Esse projeto levava para as boates, casas de prostituição, inferninhos, casas de massagens… orientações sobre sexualidade, prevenção e fazia um mapeamento das populações ditas de risco em HIV. Eu tbm pude perceber essa legitimidade, essa identidade à profissão em muitas situações. É claro que nesse universo vc trabalha com toda sorte de situações, desde um boteco em precárias condiçoes de higiene , até sofisticadas casas de massagens…Mulheres que atendiam qqr tipo de clientela, dos mais ricos aos mais miseráveis, por assim dizer…Mas o que chamou muita a minha atenção foi realmente essa disposição individualizada. Em todos os ambientes existiam mulheres que foram empurradas para essa situação, que faziam esa opção por pura falta de opção, geralmente envolvidas e eliciadas por traficantes de drogas… Mas tbm aquelas que faziam da prostituição um objetivo de vida. Essa sim profissionais do sexo com dignidade, com toda a liberdade, que lhe é devida, de escolha. Grandes mulheres com um grande senso de crítica e muito mais resolvidas do que a grande maioria das pessoas.

  2. Olha, não sou feminista, mas achei o seu texto importantíssimo. Vou comaprtilhar horrores, parabéns!

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