Vale a pena viver o outro

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5 de março de 2013 por deglutindopensamentos

427273_423699264379090_1925993822_nEliton Felipe

No próximo domingo, 10/03/2012, estarei juntamente com Adriano Fagundes e Grazi Souza, apresentando a peça “Quando fui outro” que conta a história do poeta português Fernando Pessoa, na AJOTE, antiga fábrica da Antártica.

Além do convite para que assistam, segue a crítica feita pelo blog jornalismocena.

Publicado em 24 de agosto de 2012 por jornalismocena

Quando fui outro desperta os vários eus de cada pessoa 

 TEXTO: Leandro Marcos Ferreira

Acompanhar a interpretação de Quando fui outro é um privilégio que tive o prazer de aproveitar. Estar encarregado de escrever um comentário sobre a apresentação é uma responsabilidade grande, mas que pretendo administrar. Para isso evoco todos os meus heterônimos para que possam traduzir o que vi, com maior chance de acertar.

A peça traduz momentos da vida de Fernando Pessoa. Esse poeta que, desde criança, conviveu com amigos ocultos, seus heterônimos. Em um determinado momento, quando ele tinha aproximadamente 25 anos, resolveu escrever suas conversas com esses amigos. Esses diálogos se transformaram em obras, que Fernando assinou com autoria de seus amigos ocultos. Sua equipe de trabalho literário era composta, então, por Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Além desses, sua amada também o aconselha, mas essa mantém o nome preservado. Toda a equipe esteve em Joinville sob a interpretação de Eliton Felipe (Fernando Pessoa, Álvaro de Campos), Adriano Fagundes (Alberto Caieiro, Ricardo Reis) e Graziela de Sousa (amada de Fernando Pessoa), sob a direção de Hélio Muniz.

Ter chegado mais cedo me rendeu, é claro, alguns recortes de bastidores. Quando entrei no Galpão de teatro da Ajote, os artistas ainda ensaiavam os últimos detalhes. Durante esse ensaio, Adriano entregou a mim o poema “Mar português”. “Leia fotógrafo! Leia em voz alta!”, exclamou Eliton. Li em voz alta, o que ajudou a equipe a fazer os últimos ajustes de som.

Terminados os últimos acertos, começava agora a correria para vestir os figurinos e acertar a maquiagem. Fiquei sentado, nos lugares da plateia, aguardando. Penso que esse momento antes da apresentação é único e pessoal de cada artista. Não quis interferir. Mas Eliton me chamou para o camarim: “Ooooh fotógrafo! Venha aqui atrás fazer umas fotos dos bastidores” e prontamente atendi o chamado. Algumas fotos daqui, dali, algumas perguntinhas sobre o personagem e o que se vê é um misto de ansiedade e disposição entre os artistas. Um ajuda o outro nas vestimentas, no detalhe da maquiagem, enfim, muito companheirismo.

Cenas de companheirismo e concentração nos
bastidores preparam a entrada em cena
(FOTO: Leandro Marcos Ferreira)

 

Passados alguns instantes, entra na sala Hélio Muniz. Questiono Graziela se ele é o diretor. Ela o define: “Ele é o diretor, o pai, é tudo”, resume. Hélio dá os últimos toques: “Pessoal, agora é fazer o que vocês ensaiaram, fiquem atentos para a troca de olhares”, relembra. Momentos antes de entrar no palco, Adriano me confidencia: “Esse momento é sempre de muita expectativa, é uma tensão, a gente faz todo um ensaio. Aqui esperamos que saia tudo como o combinado”, frisou. Estou ali, junto dos artistas, e eles sugerem um brinde. Taças para todos, suco de uva no copo, um brinde e pausa para a foto. Tudo pronto, saio do camarim e me posiciono.

Hélio ainda acerta mais um detalhe, pede que a luz fique em cima da máquina de escrever, do cabide de roupas e da mesa de chá. Pronto, que entre o público!

Das conversas que teve com seus amigos ocultos, Pessoa escreveu muitas de suas obras. E é com recortes desses textos, escritos a partir desses diálogos, que a peça teatral se desenrola. A montagem de Hélio Muniz buscou, em muito, o contato com o público. Por muitas vezes trouxe a plateia para dentro dos pensamentos de Fernando Pessoa. Desde o início.

A peça começa com um dos amigos imaginários de Fernando entrando por trás da plateia. “Navegar é preciso, viver não é preciso”. A frase é recitada repetidamente com diferentes entonações de voz. Durante a peça, novas interações, inclusive com fortes trocas de olhares,  que continuam a acontecer durante toda a apresentação. Por diversos momentos, Fernando Pessoa e seus amigos imaginários datilografam textos, pensamentos, que são a forma como o autor escreveu suas obras. A peça segue com trechos da carta que Fernando Pessoa escreveu ao amigo Adolfo Casas Monteiro. Essa carta é muito importante para entender a vida do autor, pois é nela que o próprio escritor define sua relação com os heterônimos. “A origem está no fundo traço de histeria que existe em mim, desde criança me cerquei de amigos que nunca existiram, não sei se eles nunca existiram ou se eu é que nunca existi”. Considero perfeita a escolha de Hélio Muniz em interpretar esse trecho da obra de Pessoa. É nele que podemos entender de onde nasce essa ficção do poeta que, mais tarde, vem ser reconhecido como um grande patrimônio para a literatura portuguesa.

A peça envolve o público à medida que o diálogo entre Pessoa e seus amigos imaginários se desenrola. Os efeitos de luzes e a ótima interpretação trazem muita realidade ao espetáculo. O desenrolar das cenas continua a explicar a origem dos personagens fictícios de Pessoa. “Por 1912, veio a ideia de escrever poemas pagãos, tinha nascido Ricardo Reis”. Nesse momento, ao recitar esse trecho, ele escancara um traço de Ricardo Reis, que é um heterônimo formal. Em outro momento, a peça também representa a relação de Fernando Pessoa com sua amada. A peça encena o provavelmente Ricardo Reis com a provável Lídia, em um momento de chamego. Os dois artistas saem do palco e vão até a plateia. Lídia senta no lugar de uma voluntária. A espectadora vai até o palco e, por instantes, contracena com Adriano Fagundes uma pequena paquera. Esse é mais um belo momento da peça. Ele leva a plateia a imaginar tal situação, a fazer como Pessoa, trocar a imagem da artista que representava o amor do autor por uma imaginação, uma figura feminina, incorporada, agora, pela artista da plateia. Um momento ímpar, de integração com o público, com leveza, sem perder, em nenhum momento, o alinhamento com o roteiro da peça.

Em outro momento alto da apresentação, a amada de Pessoa recita o poema do Menino Jesus. A interpretação é maravilhosa, emociona, Graziela vai muito bem e, por um momento, nos leva novamente para o século passado, sob o embalo da pureza dos pensamentos do então Alberto Caieiro. Lindo.

Em frente ao público os atores se revezam nas
diferentes faces e vozes de Fernando Pessoa
(FOTO: Leandro Marcos Ferreira)

 Eliton Felipe, que interpreta brilhantemente Pessoa, remete a plateia à depressão solitária do poeta. “Hoje, não há um mendigo que eu não veja, e não o inveje por ao menos não ser eu”. Nas vozes dos três atores, um momento de reflexão é celebrado. “Não sou nada, eu não posso querer ser nada, nunca serei nada”. Repetidamente, os atores chegam a angustiar a plateia, fazendo todos realmente enxergarem a profundidade desse poema.

Mas o clímax, é claro, estava reservado para o final, em mais uma brilhante ideia dos criadores da peça. Os atores saem novamente do palco, vão até a plateia e distribuem poemas de Fernando Pessoa. Delicadamente, pedem que as pessoas os leiam em voz alta. O que se sente é um heterônimo de Pessoa brotando de dentro da gente para dentro do teatro. Ele está ali, vivo nas palavras. Cada vez que nos propomos a escrever, a ler, a ouvir, lidamos com diversas personalidades nossas. A diferença é que Fernando Pessoa nomeou cada lado seu, o emocional, o racional e o equilibrado. Ao fundo a música ecoa: “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”. Com certeza o dia depois de assistir a peça é o primeiro da vida de todos os presentes, que agora conhecem um pouco mais da genialidade de Pessoa. Esse momento da peça é inesquecível. Para fechar, mais um verso eternizado pelo poeta, “valeu a pena?” O público interrompe, “valeu! Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Valeu muito a pena conferir Quando fui outro, da joinvilense Cia Canto do Povo e do Núcleo Encena Teatro.

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