O dia em que os mexicanos ergueram a cabeça

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1 de março de 2013 por deglutindopensamentos

Bicho Sanchez

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Mulheres rarámuris fogem da fome e lutam para sobreviver

Mais de 500 anos de negligência, abuso, assassinato, mais de 500 anos de vida ruim, sendo os “ninguéns” e “todos”, resistindo e resistindo a conquista imperialista, primeiro pelos espanhóis e depois pelos poderes neoliberais. Quinhentos anos de abaixar a cabeça e silenciar a voz, esconder a mão e dar a outra face, de esconder a cultura até quase esquece-la. Quinhentos anos que não se esquecem e não se perdoa.

O movimento surgiu (não foi criado) em 1º de janeiro de 1994 no estado de Chiapas, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) é o resultado do acúmulo do abuso sofrido pelos povos indígenas em sua própria terra, condicionadas pelo governo do país e do estado (Chiapas), um excesso de abusos e mortes por oligarquias.

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Indígenas da tribo Chol, integrantes do EZLN

O EZLN vê a luz pela primeira vez em 1º de janeiro, um sábado, quando a maior parte do país estava comemorando a chegada de mais um ano e a e assinatura do Acordo de Livre Comércio (NAFTA-AN ). Enquanto isso acontecia no México do “progresso e prosperidade”, no sul, um grupo de zoque, Chol, Lacandona, Tojolabales, Chujes, Jacaltecos, tzotzil e tzeltal levantava o punho e gritava: “Já basta!” Homens, mulheres e crianças com os rostos cobertos assaltavam de surpresa quatro municípios do estado de Chiapas a bala e fogo, independentemente de serem mortos pelas armas repressivas do exército mexicano, a morte não tem importância quando a liberdade, terra, igualdade e respeito estão a vista. “A insurreição armada nas montanhas de Chiapas, México, lançou um grito impressionante de profunda revolta contra uma realidade injusta, desumana e brutal. Em um paradoxo sem inocência, o surto ocorreu em um momento em que o governo estava a celebrar o início de sua modernização sintetizada no Acordo de Livre Comércio da América do Norte, que traria ao longo do tempo, o progresso e a prosperidade para todos os mexicanos” (Romero Jacobo, Los Altos de Chiapas La voz de las Armas. pp.5).

Comunidades indigenas. Polho. Chiapas, México . 1998

Comunidades indígenas. Polho. Chiapas, México. 1998. (foto de Sebastião Salgado)

Chiapas é o estado mais pobre do México. De seus 111 municípios, 37 são considerados com um nível de marginalização muito alto; a maioria deles estão localizados nas regiões altas e de selva. Chiapas tem o índice de mortalidade mais alto do país, ainda assim, a taxa de crescimento anual da população superou a nacional entre 1970 e 1990. Há um médico por cada 1130 pessoas. As principais enfermidades (desnutrição, anemia, infecções intestinais, tumores de estômago e infecções respiratórias) são a prova da pobreza geral. Além disso, Chiapas é o estado com o maior número de casos de cólera e mortes ocasionadas por tuberculose. O analfabetismo alcança o nível mais alto do país. A média de escolaridade da população de até 15 anos é a quarta série do ensino fundamental e 29% de todos os habitantes do estado maiores de 15 anos não têm instrução alguma, menos de 14% cursou os seis primeiros anos. Cerca de 26% da população fala uma língua indígena e 8,5% é monolingue. De todos os estado mexicanos, Chiapas é o de maior população que não fala o espanhol. (Zebadúa, 1999, pág.14-15)

ezln-320Com uma bandeira negra com uma estrela vermelha de cinco pontas e as letras EZLN, com a imagem da Virgem de Guadalupe, máscaras, botas de borracha em sua maioria, algumas armas de grande calibre e outras quase artesanais, mas com raiva nos olhos, os zapatistas gritavam ao México e ao mundo que os povos indígenas não estão calados e já não se escondem.

Zapatistas na cidade de San Cristóbal de las Casas

Zapatistas na cidade de San Cristóbal de las Casas

No amanhecer de 1994, o primeiro dia deste ano histórico, são tomadas de assalto pelos Exércitos Revolucionários camponeses quatro prefeituras municipais: San Cristobal de las Casas, Ocosingo, Altamirano e Las Margaritas “Entre o medo e a surpresa, o povo de São Cristóvão assistiu as primeiras ações dos insurgentes: o mobiliário do palácio, empilhado no meio da rua, se transformou em barricadas; uma farmácia, uma empresa de Seguro e um hotel foram assaltados. Expropriaram-se alimentos, remédios e colchões. As instalações da Procuradoria Geral do Estado foram queimadas. Em Ocosingo, uma porta de entrada para a floresta de Lacandona, o drama foi maior: em confrontos com os zapatistas, dois policiais foram mortos. Como em San Cristobal, Altamirano foi tomada pelos rebeldes sem resistência da população. A ocupação, desde o primeiro dia do ano, subjugou a polícia do estado que acabou fugindo para as montanhas. Na localidade de Margaritas, outros grupos armados tomaram a cidade e sequestraram o ex-governador Absalon Castellanos, a quem era creditada, a causa direta de uma era de repressão e injustiça que os grupos indígenas viviam no Estado.” ( Romero Jacobo, Los Altos de Chiapas La voz de las Armas. pp. 11-13)

Doze longos dias duram a batalha entre os zapatistas e o exército mexicano, uma batalha que para muitos era apenas um suspiro de revolta, para outros apenas uma provocação por um grupo muito pequeno de “mexicanos”, outros dizem que o levante do EZLN só queria desestabilizar uma nação que estava no caminho para a prosperidade e desenvolvimento, dizem que o fato é que “O conflito não eclodiu em 1º de janeiro de 1994, como resposta à pobreza e aos péssimos governantes, mas como um meio de pressão política para enfraquecer o grupo do presidente Carlos Salinas e contrariar as expectativas positivas de investimento internacional que se abria para o México com a entrada em vigor do TLC nesse dia. Também para criar oportunidades para os grupos de esquerda do Partido Revolucionário Institucional (PRI), na oposição ou desempregados querendo ganhar espaço político no governo seguinte, apresentando o conflito como resultado de políticas ‘Neoliberais Salinistas’” (Pazos Luis, ¿Por qué Chiapas?, pp. 10)

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EZLN – Ejercito Zapatista de Libertación Nacional

A “declaração de guerra contra o Exército Federal Mexicano, pilar da ditadura que sofremos, monopolizada pelo partido no poder e liderado pelo Executivo Federal, que hoje tem como líder máximo e ilegítimo, Carlos Salinas de Gortari.”

O exército zapatista ordenou as suas forças militares para “avançar sobre a capital do país, superando o Exército Federal Mexicano”, protegendo, durante o seu avanço, a população civil e permitindo aos “povos libertados” eleger democraticamente suas próprias autoridades.

A razão para a luta, dizem, é para atender as demandas que o Estado não cumpriu: trabalho, terra, moradia, alimentação, saúde, independência, liberdade, democracia, justiça e paz. Somos milhares de mexicanos dispostos a viver ou morrer por nosso país e pela liberdade. ( Desde los muros de las ciudades tomadas y una estación de radio asaltada por los rebeldes –la XEOCH de Ocosingo- se conocerían las primeras proclamas “zapatistas” (Romero Jacobo, Los Altos de Chiapas La voz de las Armas. pp. 15))

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2 pensamentos sobre “O dia em que os mexicanos ergueram a cabeça

  1. Olá,

    Massa trazer outras referências. Importante notar que o EZLN é fruto de um trabalho de base comunitário na perspectiva da democracia direta inciado quase dez anos antes do levante no 01 de janeiro de 1994. Que além do dia 01 de janeiro de 1994, a luta do EZLN mantém os dois pés na perspectiva da história dos povos indígenas e da democracia direta em oposição a via eleitoral, como a “Outra campanha” iniciada no século XXI.

    • Luis Sánchez disse:

      Hola y un saludo fraterno. Buena apreciación con respecto a la perspectiva del EZLN y el rumbo que toma hacia con los pueblos originarios de México posterior al levantamiento armado. Primeramente, éste trabajo se decidió hacer en partes, bloques o capítulos, y éste primero, es la aparición a la luz del EZLN, trato de dar una visión sólo de lo que fueron esas horas o esos 12 días de combate y claro, el contexto del porqué la decisión de tomar las armas por parte de los “nadies”.
      Por lo mismo de los capítulos, la “otra campaña” que inicia en 2005, será un tema a tratar en estos textos, sin embargo, te diré que se decide hacer esta manifestación y recorrido por todo el país por parte del EZLN para reafirmar la voz de los oprimidos, de los que no son de izquierda, derecha y centro. Casi el 80% de la población y con respecto a la perspectiva indígena sigue siendo la misma, sin embargo, el EZLN se no puede cegarse a los problemas de todo el país y “adopta” al pueblo mexicano en general y sus problemáticas y subrayo, sin omitir en ningún momento su esencia y lucha venida de la selva.

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