Estão falando de você na internet

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1 de março de 2013 por deglutindopensamentos

Leonardo Vicete

Imagine você, abrindo seu perfil em alguma rede social que costuma usar, ao checar as notificações pendentes dar de cara com milhares de mensagens ofensivas. Não entende nada. São pessoas lhe acusando e desferindo críticas severas a sua conduta, falando do seu passado, presente e futuro e lhe rotulando como o ser mais desprezível da face da terra. Que tipo de sentimento isso lhe causaria?

Infelizmente, hoje em dia com a explosão das mídias sociais, estamos vivendo um período muito caótico e delicado nos relacionamentos entre pessoas no ambiente digital. Parece que a internet é terra de ninguém e lá encontramos o melhor e o pior do ser humano. As pessoas estão usando essa janela virtual para se expor, de maneiras nada convenientes, e dentre as atitudes mais bizarras posso citar coisas que já vi aos montes: desde discussões que caem na total falta de respeito, difamação, calúnias ou simplesmente, as pessoas que se escondem atrás de um avatar anônimo na rede, e berram aos quatros ventos sua ira mais profunda, por mais fora de contexto ou sentido que isso possa ser.

Usei a descrição inicial, para ilustrar o que percebi há algum tempo enquanto navegava nas redes sociais. Percebi que antes o que era uma simples fofoca no mundo real, toma formas muito mais perigosas nas redes sociais. Se antes a conversa entre vizinhas deixava escapar alguma história maldosa, o papo ficava ali, no bairro, e logo mais tarde a verdade se encarregava de vir a tona e limpar o nome da pessoa caluniada. Depois, vieram as grandes celebridades e a mídia transformou as fofocas em produto, vendendo capas de revistas e matérias de jornal, mas mesmo assim, com uma boa assessoria de imprensa o alvo poderia se retratar e a memória do telespectador dava jeito de apagar as evidências. Agora vemos que a internet, um ambiente que ainda não é totalmente regulado por normas e onde as pessoas ainda não criaram uma etiqueta social padrão para o uso, torna esses fatos uma verdadeira epidemia social.

Fiz uma pequena lista mental de ocorrências que me levaram a essa conclusão e vou começar pela mais recente: Daniel Campos, um cidadão comum, vai até um restaurante com sua noiva para celebrar uma data especial do casal e e é barrado na entrada por estar 1 minuto atrasado. O restaurante havia fechado suas portas às 23 horas daquele dia e a funcionário explicou que não poderia permitir sua entrada. Indignado, Daniel voltou para casa e fez seu pronunciamento na página do Facebook da empresa.

daniel_outback3

Logo após a publicação surgiram vários comentários em relação ao ocorrido:

 daniel_outback6.jpeg

A partir daí várias pessoas passaram a criticar a atitude do rapaz. Não demorou para a situação virar piada, com direito a memes e uma página do Facebook, que em poucas horas já ultrapassava 1000 curtidas.

daniel_outback ff

Não quero entrar na questão do cliente estar certo ou não, nem questionar a atitude da funcionária, se ela apenas seguiu diretrizes. O que questiono é: o Daniel precisava ir até a página (pública!) do Outback para gritar e bradar que foi mau atendido? O que ele queria com isso?

Fico pensando, seria essa uma atitude normal, se as pessoas que são mal atendidas em ambientes públicos, seja em restaurantes ou mesmo repartições públicas, saírem dali e no instante seguinte gritarem no meio da rua sua indignação, esperando que os transeuntes se sensibilizem com sua causa e se unam a ele, para então retornar ao lugar e exigir seus “direitos”?

Nesse caso, o tiro saiu pela culatra, e o que o cliente imaginava (na verdade não sei nem o que ele queria) acabou não acontecendo e toda a atenção se voltou para a sua atitude.

Essa fato reforça a tendências das pessoas usarem as redes sociais para tentar reunir apoio quando se sentem prejudicadas. Parece haver um conceito sendo construído, de que é mais prático revelar à sociedade as suas próprias mazelas e ser reconhecido como vítima entre a população, do que efetivamente ir até a justiça fazer valer o que a lei determina. Entretanto, sabemos que tudo que chama atenção na sociedade e tem muita visibilidade, acaba sendo copiado e replicado de forma desorganizada e desenfreada. E dessa maneira, as pessoas tem visto as outras usando a ferramenta que é de propagação quase instântanea de informações na internet, para disseminar suas campanhas em prol de seus benefícios, ou mesmo, para defender suas causas, mesmo que atingindo outras pessoas desconhecidas, sem sequer ter conhecimento de todos os fatos. E isso me leva ao segundo ocorrido:

Todos ainda temos na memória a recente tragédia de Santa Maria e sabemos de toda a repercussão do acontecido. Diariamente saíam notas na imprensa e matérias minuciosas sobre cada detalhe. Em meio a essa enxurrada de informação, pessoas foram até as redes sociais e procuraram a página no Facebook da banda acusada de ser responsável pelo incêndio. Isso proporcionou a cena descrita lá no começo do texto. Nesse caso as pessoas envolvidas eram de um outro grupo com nome semelhante, que acabou sendo confundida com a outra bamda. Pronto, o circo estava formado e os palhaços já estavam na arena.

Fiquei sabendo do fato através dessa matéria, e fiquei abismado por imaginar que pode haver tanta gente desocupada e totalmente livre de consciência para, sem qualquer pudor,  julgar outras pessoas nas redes sociais. Gente que não teve o critério de se certificar a quem estava se referindo, ou mesmo de esperar a justiça definir se a banda era culpada ou não. De novo, não vou entrar na discussão dos fatores envolvendo a banda e a tragédia, estou apenas me referindo a atitude dos usuários.

Poderia citar outros casos em que pessoas são julgadas e condenadas no júri popular – que as redes sociais se tornaram, e isso seria apenas um lado, dos muitos que envolvem a questão da calúnia e difamação presente nessas práticas. Há casos, já confirmados e desmascarados, de pessoas que são vítimas de montagens, onde suas fotos são modificadas, para que em lugar de algum objeto que a pessoa segurava, como um brinquedo, fosse colocada uma arma. Pode-se facilmente criar uma cena em que a mãe aponta uma arma para seu filho recém nascido e acaba suscitando uma avalanche de protestos radicais envolvendo a mulher. Nesse caso, não é somente o nome da pessoa envolvida, mas a imagem que acaba sendo associada a algo irreal, que as pessoas tomam por verdade e disseminam sem nenhuma verificação.

Ainda há as correntes que são criadas e repassadas, e as campanhas fraudulentas em busca de prêmios para promoções, além de informações errôneas que as pessoas costumam retransmitir. Não entendo o objetivo, se quem cria sente alguma satisfação ou se isso confere algum status a alguém que não é relacionado diretamente a essa propagação, pois nunca conseguimos saber quem começou a mentira.

E para finalizar, e demonstrar de forma mais clara como internautas tomam atitudes descabidas, cito o fato que ocorreu essa semana comigo enquanto navagava no Facebook: a página Tech Mundo havia feito esse post informando ao público que a promoção citada era falsa, incluindo na legenda “Página falsa da Apple promete sorteio de iPhones no Facebook. Não caia nessa e não deixe seus amigos caírem!” com um link para a matéria. Ao ler os comentários, percebo que vários dos usuários aparentemente haviam apenas visualizado a imagem, colocando a cor que gostariam de receber o “prêmio”(!).

Para mim, isso deixa evidente o descaso das pessoas ao tratarem qualquer informação nas redes sociais. Vejo que esse ainda é um território onde as pessoas não perceberam ser uma extensão da vida real, repercutindo aqui fora suas ações, tanto no reflexo que se tem na vida das outras pessoas, como na exposição do seu próprio comportamento.

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9 pensamentos sobre “Estão falando de você na internet

  1. Excelente tema, excelente argumentações. Esse assunto ainda vai dar o que falar, e muito!

  2. Camila Elisio Momm disse:

    Em relação a esse negócio de reclamar por não ser atendido “UM minuto” depois do horário já aconteceu comigo VÁRIAS vezes. Atualmente, por exemplo, meu horário de saída é as 17:30h, mas a escola está aberta até as 17:45h. MUITAS, repito, MUITAS pessoas chegam as 17:35h (pq eu nunca consigo sair no horário certo) e pedem atendimento disso ou daquilo. Educadamente eu explico que meu horário já passou e preciso buscar minha filha na creche. Alguns entendem, outros não, mas acho um absurdo exigir atendimento depois do horário de trabalho de qualquer pessoa. Enfim, o foco não é esse, eu sei, mas é um assunto que me causa um grande interesse em debater =)
    Parabéns pelo artigo Léo, adorei!

  3. Pra mim as redes sociais não mudaram em nada o comportamento das pessoas, elas são apenas um reflexo do que sempre foram.

    Pela praticidade de poder falar “o que quiser” sem olhar na cara do outro as pessoas falam tudo aquilo que lhe convém, não raciocinam antes de falar como fariam naturalmente se estivessem cara a cara.

    A internet da uma falsa impressão de poder e sempre que você da poder as pessoas elas tendem a utilizá-lo em benefício próprio, a internet revela sobre uma pessoa mais da intimidade dela do que uma confissão do próprio indivíduo.

    PS.: O Outback tem toda razão em não aceitar o cliente depois do horário, não interessa se veio da PQP, se sabia o horário saisse antes e respeitasse os profissionais que estavam trabalhando até aquele horário da noite. Já fui vendedor e isso é bem comum, acho uma tremenda falta de respeito e só quem ta do outro lado sabe como é.

  4. Antônio Tomaz disse:

    Engraçado ler tua opinião em uma rede social. Mas quando tornamos pública, uma ideia, uma crítica, uma reflexão ou um pensamento precisamos estar preparados para todo tipo de repercussão. Nos últimos dias tenho manifestado alguns problemas que tenho constatado em várias áreas, muitas vezes correndo risco de ter minha opinião julgada pelos outros.

    • Sim, Antônio, ao nos expressarmos estamos sujeitos as interpretações. O julgamento acaba surgindo quando as pessoas procuram se posicionar a favor ou contra o que dizemos, é muito natural tomar partido. Agora uma opinião pode ser abstrata, referente a uma prática ou crença, ou ser pessoal e ter alvo certo, e dessa maneira se transformar em crítica, ofensa ou difamação,dependendo do peso das palavras.
      Eu particularmente, quando opino, estou ciente de que o que digo pode ser usado como indicador de minha personalidade, mesmo que uma única declaração não carregue todas as facetas da minha personalidade, porém essa concepção criada pelos outros será relacionada apenas a mim e minhas crenças, o perigo mora no momento em que envolvo outras pessoas nas minhas declarações. Reforço, o bom senso é o melhor caminho, sempre.
      E viva a liberdade de expressão, com respeito ao próximo.
      Abraço e obrigado pela participação!

  5. Muito interessante este artigo. Vale para que pensemos nossas atitudes, seja do lado do balcão em que estivermos. Também não sei se as redes sociais são o melhor caminho, penso que no máximo funcionam como uma válvula de escape, uma forma de extravasar nossa momentânea frustração por algo com o qual não concordamos. Em alguns casos posso até fazer nas redes sociais um comentário genérico e, aos interessados – que eu sinta mesmo estarem interessados com a minha manifestação, mas não para tornar isto uma forma de achincalhar quem, presumo, está cumprindo uma ordem superior – e não a todos… Já passei por esta situação e o que faço é o seguinte: não vou mais aquele lugar e comento em minhas redes de relacionamento (não as virtuais) o que me ocorreu, sem querer fazer a cabeça de ninguém para que não vá ao lugar. Cada um que vá tirar a prova dos nove e faça seu próprio julgamento. É o que penso. Claro, respeitando a manifestação e o sentimento de indignação de quem passou por este constrangimento.

    • É verdade, Ronaldo, se as pessoas tivessem o bom senso, isso já pouparia muitos problemas. O que ocorre é a necessidade de sempre estar com a razão que as pessoas carregam e não percebem. O ato de falar em seu círculo de amizades, mesmo que virtual, ocorre naturalmente, mas é diferente quando expomos aberta e publicamente, pois é claro que não saímos por aí na rua para falar para desconhecidos nossa insatisfação pessoal.
      Penso que as pessoas percebem a internet como uma janela para seus quinze minutos de fama, e que por se tratar de uma mídia poderosa e relativamente livre, acaba instigando ese tipo de atitude, que pode ser motivada por necessidade de atenção, caréncia, visando fama, entre outros fatores. Claro que em contrapartida ocorrem coisas que fogem ao controle da gente, por exemplo quando difamam alguém e o expõe, como citei no texto.

      O que fica em aberto para discussão entre tantos lados e pontos de visita que esse assunto suscita é a questão da privacidade e ética na web.
      Obrigado pela participação! Abraço!

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