Udo bebendo a água de Kennedy?

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27 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

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O prefeito Udo Döhler, o governador Raimundo Colombo assinando a ordem de serviço. Foto: Maiara Bersch / Agencia RBS

O prefeito Udo Döhler, o governador Raimundo Colombo assinando a ordem de serviço. Foto: Maiara Bersch / Agencia RBS

Depois de ver a ordem de serviço para a duplicação da Av. Santos Dumont, em Joinville, estampando as capas de jornais da cidade, não resisti e atualizei um texto antigo, mas nem tanto, para postá-lo aqui.

Um dos assuntos mais abordados nas últimas eleições municipais foi o da mobilidade urbana. A realidade de Joinville está longe de ser a ideal quando se trata do deslocamento das pessoas dentro da cidade. O município possui uma das maiores extensões de ciclofaixas e ciclovias do país, mas ainda é pouco para quem se outorga o titulo de “Cidade das bicicletas”, já que nas últimas décadas é crescente e visível a troca das das pedaladas pelos postos de combustível. Quanto ao transporte coletivo, poucos ônibus, muita gente, valores elevados formam uma combinação explosiva que atinge seu ápice todos os dias nos horários de pico, quando milhares de pessoas se deslocam entre os terminais lotados na tentativa de ir para o trabalho e escola ou para suas casas descansarem.

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Esses casos se devem, principalmente, ao fato de que a frota de veículos na cidade cresceu de forma vertiginosa, foram 200% nos últimos dez anos. Nesse mesmo período a população que utiliza o transporte coletivo caiu cerca de 13,8%. Em 2002, Joinville possuía uma moto para cada 21,3 habitantes, em 2011 esse número subiu para 1 moto para cada 10,7 habitantes. Quanto aos carros, enquanto em 2002 havia 1 carro para cada 2,82 habitantes, esse número quase dobrou em 2011, chegando a 1 carro para 1,70 habitante.

Esse crescimento desordenado entope, não só as vias, como também os hospitais. Hoje, a maior parte dos atendimentos no setor de traumatologia do hospital São José, por exemplo, está relacionada a acidentes de moto gerando um ônus no orçamento do município com gastos em medicação, internação, atendimento, além do afastamento da mão de obra, já que os acidentes ocorrem, geralmente, com homens entre 20 e 40 anos. Para se ter uma ideia, em 2010 o SUS repassou R$ 5,4 milhões para serem gastos com traumas em Joinville. Desse montante, R$ 1,9 foram gastos com pacientes que sofreram acidentes de moto. Isso sem contar os pacientes que, após o atendimento na traumatologia, são transferidos para outros setores, ocupando leitos por meses seguidos.

Dep. Clarikennedy Nunes

Dep. Clarikennedy Nunes

Na última eleição, os candidatos propuseram algumas fórmulas mágicas para resolverem esses problemas. A maioria delas tratava de elevados, pontes e túneis, uma solução que, na prática, não resolve nada. A cidade continuará crescendo e em alguns anos, se seguirmos o ritmo de consumo desenfreado de automóveis, essa solução ficará obsoleta e teremos o mesmo problema e, agravado.

Segundo o então candidato a prefeito, Kennedy Nunes, o “remédio” para o trânsito de Joinville estava na construção de um túnel de 1,6 km ligando a rua Benjamin Constante com a Marquês de Olinda com valor estimado em R$ 13,9 milhões (sem constar os valores que serão desviados para as “obras de caridade”) e de mais três viadutos e um elevado. O valor final seria de 55,5 milhões sem contar o investimento que seria feito para desapropriar os terrenos necessários para a realização das obras.

Além disso, Kennedy pretendia gastar cerca de R$ 100 milhões na duplicação da Av. Santos Dummont. Todo esse dinheiro viria de parcerias com o governo do estado e com o governo federal, exceto as desapropriações que seriam feitas com dinheiro da prefeitura.

Foto: Diorgenes Pandini / Agência RBS

Foto: Diorgenes Pandini / Agência RBS

Como esses valores me assustaram, decidi fazer algumas contas procurando empregar esse dinheiro de maneira mais eficaz. Comecei descobrindo o valor de um ônibus utilizado no transporte coletivo de Joinville. Hoje, as empresas dispõem, considerando a frota reserva, de pouco mais de 360 veículos, o que representa cerca de um ônibus para cada 1450 habitantes. O que aconteceria então, se pudéssemos dobrar essa quantidade?

pisobaixo02De acordo com um antigo funcionário da BUSSCAR, um veículo urbano (dependendo dos opcionais) variava, nessa empresa, entre R$ 80.000 e R$ 100.000 enquanto um articulado ficava entre R$ 150.000 e 170.000, a negociação realizada com a Transtusa fixava o preço em R$ 90.000 para o urbano. Nessa conta está incluso apenas a carroceria, ainda falta o motor Mercedes Bens, mas nos valores propostos por Kennedy não estavam inclusas as desapropriações, o que deve se equivaler.

Vamos à conta: se pegarmos os R$ 155,5 milhões pretendidos por Kennedy e dividirmos por R$ 90.000 teríamos uns 1727 ônibus urbanos, mas não queremos tantos urbanos, então vamos dividir uns R$ 100 milhões por R$150.000, teremos cerca de 667 novos articulados, mas não precisamos de tanto. Vamos comprar então, 600 urbanos (cerca de R$ 54 milhões) e 100 articulados (valor estimado em R$ 15 milhões), nessa conta teríamos o dobro de ônibus do que é oferecido pelas empresas privadas que são concessionárias do transporte coletivo na cidade, poderíamos criar uma empresa pública, portanto sem lucro e, consequentemente, com passagens muito mais baratas do que atualmente e ainda sobraria quase R$ 100 milhões para investir em obras viárias que priorizassem o transporte coletivo.

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Com essas medidas que visam o coletivo e não o particular e que propiciam mais conforto e qualidade na prestação do serviço, o número de usuários do sistema cresceria, os transtornos no trânsito diminuiriam, a economia no setor de traumatologia seria enorme, possibilitando o envio das verbas destinadas ao tratamento de acidentados com motos para outros setores do hospital melhorando a saúde pública do município.

Não haveria a necessidade da instalação de uma fábrica de carros na cidade, pois os empregos estariam assegurados na empresa de ônibus que por anos foi uma das maiores da América Latina e que, pasmem, foi a falência sem lágrimas ou velas de sétimo dia.

O Preço das passagens poderia ser custeado de várias formas diferentes, desde a venda do Busdoor que poderiam utilizar as laterais dos ônibus e não somente os vidros traseiros, poderiam ser criados estacionamentos públicos nas áreas centrais com cobrança revertida para custeio do transporte coletivo, IPTU progressivo em áreas nobres e por aí vai.

No meu antigo texto eu dizia que, se você preferisse votar em um candidato que pretende gastar milhões em obras que, a médio prazo, não terão efeito nenhum e que a longo prazo tornar-se-ão grandes elefantes brancos, pois não resolverão, nem de longe, o problema do município, fique a vontade para digitar o 55. Se optar por algo melhor, procure propostas mais interessantes para a cidade, com certeza você encontrará alguma. Por sorte ele não ganhou, o que não significou grandes avanços.

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Em vez de Kennedy, elegeram o empresário Udo Döhler, prefeito que, em menos de três meses de mandato, cancelou o JASC dizendo que, em troca, receberá dinheiro para a saúde do governo do estado que nem o secretário estadual de saúde sabe de onde será tirado, afinal a secretaria não possui caixa para isso; criou uma guarda armada para “proteger” os bairros em vez de incentivar ações que inibam o contato dos jovens com a criminalidade; está agora, pondo em prática uma das ideias mais estapafúrdias propostas por seu oponente: a duplicação da Santos Dumont. Com aval do governador Raimundo Colombo, que já assinou a ordem de serviço, mais uma “grande” obra sai do papel na “Cidade das bicicletas” ou seria dos carros?

 Encerro meu texto com um vídeo que mostra a transformação ocorrida na Holanda, país que serve como modelo de sustentabilidade para o mundo todo.

 https://www.youtube.com/watch?v=BqhZMh6dQNM

Bibliografia, caso alguém não acredite nas informações.

KAMRADT, João. Teste de realidade: Kennedy Nunes explica qual sua solução para trânsito em Joinville. Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default.jsp?uf=2&local=18&section=Pol%EDtica&newsID=a3888311.xmlAcessado em: 17/09/2012

NEUMANN, Miguel, Por que recusar o plano da licitação do transporte em Joinville? Disponível em: http://nozarcao.blogspot.com.br/ Acessado em: 20/09/2012.

GIDION; TRANSTUSA.Joinville: radiografia do transporte coletivo. Disponível em: http://www.youblisher.com/p/417888-Book-Transporte-Coletivo/ acessado em: 30/09/2012.

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