Cotas, pra quê te quero?

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26 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe

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Não dá para falar de cotas sem falar sobre preconceito e é aí que os comentários esdrúxulos mais aparecem: os anti-cotistas adoram dizer que reservar vagas para negros é racismo, pois divide ainda mais a sociedade, além de perpetuar a ideia de que o negro é incapaz de conseguir uma vaga em uma universidade federal por mérito próprio. Já ouvi e li coisas do tipo “o preconceito só vai acabar quando pararmos de falar nele”. Que isso não existe mais no Brasil e que os brancos pobres e os negros têm as mesmas oportunidades. Isso por si só já caracterizaria preconceito ou explicita as diferenças sociais brasileiras. Branco pobre e Negro (Sem importar a condição social) lutam em igualdade. Ou seja, no Brasil ou não há desigualdade socioeconômica entre negros e brancos ou os negros são incapazes mesmo.

Partindo da primeira situação, a desigualdade brasileira, que, a meu ver, é a correta, podemos ver alguns dados que mostram como o Brasil é igualitário e como os negros levam uma vida em condições muito iguais a dos brancos. Comecemos pelos salários dos brasileiros http://migre.me/cgJhi:

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Para quem não entendeu os dados, eles mostram o quanto os brancos com o mesmo nível de escolaridade dos negros recebem há mais.

Vejamos agora a escolaridade no Brasil:

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Quem viu o gráfico do negro e achou que ele está na frente no ensino fundamental e médio, leia novamente. O gráfico se refere a pessoas entre 18 e 24 anos, ou seja, com idade para cursar o ensino superior e não os primeiros anos na escola. Abaixo reproduzo um gráfico que apresenta a Média de anos de estudo da população ocupada com 16 anos ou mais de idade, segundo sexo e cor no Brasil em 1996 e 2007 http://migre.me/cgJmX.

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Os negros perdem em todas as comparações, seja entre homens e mulheres, mulheres e mulheres ou homens e homens.

Referente a taxa de desempregados no país com mais de dezesseis anos http://migre.me/cgJmX, os negros só ficam a frente dos brancos no comparativo homens negros e mulheres brancas:

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E o melhor gráfico de todos, os domicílios brasileiros que recebem o bolsa família http://migre.me/cgJmX. Nesse gráfico os negros vencem com folga.

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E por que tudo isso? Foi desleixo dos negros, é o que dizem alguns defensores do fim das cotas. Se ganha menos é porque não trabalha direito, se ganha bolsa família é porque não quer trabalhar, se não estuda é vagabundo.

Em uma analise mais cientifica do caso, vemos uma sociedade opressora que durante 300 anos escravizou, humilhou, marginalizou parte de sua população e que, nos últimos 124 anos, fez questão de isolar ainda mais essas pessoas em “comunidades” e “favelas”.

Estima-se que cerca de 15 milhões de negros vieram ao Brasil para formar a primeira geração de trabalhadores da historia brasileira. Retirados a força de seu mundo, vindo para o país como gado. Desses 15 milhões, apenas 1/3 chegou ao destino final nos portos brasileiros, ou seja, cerca de 10 milhões de pessoas morreram no caminho entre a África e a América. Depois de séculos de exploração de sua mão de obra, no fim do século XIX, os negros que saíram das senzalas, com a liberdade conquistada a custo de muito sangue, foram substituídos pelos imigrantes europeus e asiáticos que assumiram seus postos de forma assalariada, enquanto isso os ex-escravos acabaram nas periferias, sem emprego ou oportunidade de desenvolvimento.

Enquanto os adultos tinham de se virar como podiam com o trabalho informal e a mendicância, bem diferente da novela Lado a Lado das 19:00 horas na rede globo, onde os personagens negros são felizes em sua condição de miséria, ou pior, são cultos, intelectuais e bem sucedidos, dando a impressão de que essa era a realidade existente no Brasil do início do século XX, as crianças não iam a escola. Por dois motivos, o primeiro, porque escola não era “coisa de preto”, mais ou menos como as universidades antes das cotas, e segundo porque não havia escolas que os negros pudessem frequentar sem serem discriminados ou mesmo próximas de onde eles viviam. Nesses guetos, a criminalidade aumentava incentivada pelas péssimas condições de vida a que a população negra estava submetida.

Essa situação se estende por todo o século XX com parcas melhoras graças a mobilização dos grupos negros que se formam nesse período. São poucos os que conseguem sair da condição de marginalizado, como resultado, além dos gráficos anteriores, a Taxa de homicídios para cada 100 mil habitantes, por exemplo, entre os negros ainda é muito maior do que entre os brancos http://migre.me/cgJwO:

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De forma resumida, essa é a realidade vivida pelos negros no Brasil desde sua chegada forçada ao país. É evidente que existem exceções, mas no geral é isso.

Então por que precisamos das cotas?

Não cursei universidade pública, portanto não havia cotas onde estudei, mas é possível traçar um panorama da desigualdade dentro das universidades a partir da minha experiência enquanto acadêmico. Em Joinville, a população negra, a maior do estado de Santa Catarina, é de 17,4% http://migre.me/cgOTc, mas quantos negros passaram por mim nos corredores da Univille? No mesmo curso que eu, apenas três e nenhum deles concluiu a faculdade. Quantos professores negros faziam parte do corpo doscente? Em história nenhum, nos outros cursos nunca vi.

Se é assim no privado imagina no público. Ok, não precisa imaginar, eu apresento os dados. Em 2003, pretos e pardos correspondiam a 34,2% dos alunos. Em 2010, com a ajuda das cotas, esse número saltou para 40,8%, uma média de crescimento de 1% ao ano, mas se considerarmos apenas a população negra, os dados vão de 5,9% para 8,72%, um aumento de 47,7% na participação dessa população em universidades federais. Uma parcela ainda desequilibrada se levarmos em conta que a população preta e parda corresponde a 51% dos brasileiros http://migre.me/cgJBs.

Esses números levam em consideração estudantes de todas as idades, quando pegamos somente aqueles que, em tese, não teriam atraso escolar e estariam concluindo o curso aos 21 anos, vemos que a diferença que favorece os brancos aumentou ainda mais na última década. Alunos brancos com 21 anos de idade em 2007 eram 24,2% contra apenas 8,4% de pretos e pardos. Uma diferença de 15,8 pontos percentuais. Em 1997 essa diferença era de 9,6 pontos percentuais http://migre.me/cgJ3e.

Quando falamos dos estudantes universitários que já concluíram os seus cursos podemos ver a disparidade da cor. Em 1997, por exemplo, a porcentagem de negros e pardos com mais de 25 anos e nível superior completo no País não passava de 2,2%, por outro lado, os brancos atingiam 9,6%. Passados 10 anos da primeira pesquisa, já no sistema de cotas, o resultado não mudou de forma substancial. Em 2007 o número de brancos com graduação concluída era de 13,4%, enquanto o de negros e pardos alcançava apenas 4%, um número três vezes menor http://migre.me/cgJ3e.

É nessa hora que os ati-cotistas levantam de suas cadeiras indignados erguendo a voz e esbravejando que as cotas não resolvem nada, e que, precisamos sim, melhorar a educação na base. No ensino fundamental e médio. Isso acabaria com o abismo existente entre os que podem pagar e os que usufruem da escola pública.

E os cursinhos pré-vestibular? Se as escolas particulares estão tão a frente assim das públicas qual a diferença em fazer ou não um cursinho? Que é preciso melhorar a qualidade da educação todo mundo sabe, isso não é novidade, mas isso não resolverá o problema do ensino superior. Para garantir o acesso de toda a população o primeiro passo seria a mudança na forma de seleção dos alunos. O vestibular não atesta conhecimento e os educadores estão cansados de falarem sobre isso. Aqueles que estão mais bem “adestrados” ingressarão na Universidade e é aí que quem tem dinheiro sempre será privilegiado, podendo pagar seus adestradores.

Já consigo ver cadeiras voando em minha direção, mas acalmem-se anti-cotistas, ainda tem mais. Antes que vocês digam a palavrinha mágica eu digo por vocês: meritocracia. Não suporto essa palavra, mas sei que ela está sendo cuspida em mim nesse momento. Traduzindo-a:Meritocracia (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e uma predominância de valores associados à educação e àcompetênciahttp://migre.me/cgK3l.

Para entendermos o mérito da questão (com o perdão do trocadilho), vejamos os dados fornecidos pelo IBGE: Dos 15 aos 17 anos, quando os alunos deveriam cursar o ensino médio, dos cerca de 85,2% dos brancos frequentando a escola, 58,7% estavam no ensino médio. Entre os pretos e pardos, o total de alunos que estavam na série correta de acordo com a idade eram de 39,4% em um total de 79,8% que estavam estudando http://migre.me/cgJ3e. Se esses estudantes não conseguem nem acompanhar o ensino médio, como poderão cursar uma universidade?

A resposta para essa pergunta pode ser percebida dando uma olhada nos resultados obtidos pelos cotistas e não cotistas nas universidades federais. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), por exemplo, em 2003, 49% dos cotistas foram aprovados em todas as disciplinas no primeiro semestre, contra 47% dos estudantes não cotistas. Em 2010, novo estudo constatou que o índice de reprovações e a taxa de evasão totais permaneceram menores entre os beneficiados pelas cotas http://migre.me/cgK4Z.

Já na Universidade de Campinas (Unicamp), o desempenho médio dos alunos que entraram na faculdade graças ao sistema de cotas é superior ao resultado alcançado pelos demais estudantes. Em 2005, os cotistas tinham média superior em 31 dos 56 cursos com destaque para o de Medicina, um dos mais concorridos – a média dos que vieram de escola pública ficou em 7,9; a dos demais foi de 7,6.

No ano seguinte a vantagem aumentou, a média foi melhor em 34 cursos http://migre.me/cgK4Z.

Ou seja, todos os argumentos apresentados pelos não-cotistas caem por terra quando a situação social brasileira é levada em consideração. Pagar a dívida histórica que possuímos em relação as classes marginalizadas não é mais do que a nossa obrigação. Eu sei que o meu filho, branco como eu, não terá as mesmas dificuldades que um negro. Desde a própria aceitação até o mercado de trabalho, porém, posso trabalhar para diminuir esse abismo e espero que esse texto tenha ajudado nesse ponto.

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6 pensamentos sobre “Cotas, pra quê te quero?

  1. Tainá disse:

    Como assim os negros se saem pior no ensino médio, e melhor na faculdade?

    • Tainá, obrigado pela pergunta. Seguinte, os dados sobre o ensino médio e fundamental não podem serem levados em conta de forma isolada. Quando pensamos em pessoas nas universidades, estamos falando de adultos, nos níveis anteriores estamos falando de adolescentes e crianças em processo de formação social e psicológica. E nesses, os números são negativos, principalmente, dada a evasão para trabalhar e pelas dificuldades geradas pelo preconceito. Na universidade, o horizonte se torna maior, ainda mais para quem sempre teve menos e, aí, o desempenho é melhor. Para quem estudou em Universidade privada, como foi o meu caso, fica fácil fazer a relação, basta pensar no empenho de quem tinha de trabalhar para bancar os estudos e no de quem era bancado pelos pais. 🙂

  2. Aurelio Mayorca disse:

    Com todo o respeito , mas peço mudar o tom do texto .
    O texto é extremamente parcial .
    Para promover a paz e convivência é necessário escrúpulos e responsabilidade, assim também é para falar à sociedade brasileira (todos os brasileiros) , pois jogar pessoas uma contras-as-contras, acirrando diferenças ou raças é extremamente perigoso e exige responsabilidade . Pois, ninguém é dono da verdade (quem se julga dono da verdade são tiranos, como por exemplo: alguns líderes negros africanos que em pleno século XXI ainda combatem opositores políticos cortando-lhes as duas mãos).

  3. Gregorio Unbehaun Leal da Silva (201300409) disse:

    ótimo texto, vai me ajudar nas minhas ideias. abs

  4. Carolina Reichert disse:

    Ótimo texto. Os anti-cotistas agem como se soubessem das dificuldades pelas quais um negro tem que passar durante sua vida, como se fosse muito fácil se livrar delas, como se bastasse somente ter vontade. Essas pessoas só conseguem imaginar tais dificuldades e agem como se tudo fosse lindo e cor-de-rosa.

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