Vítimas assassinas

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22 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Leonardo Vicente

Geralmente, quando lemos notícias envolvendo crianças como vítimas, ficamos chocados e revoltados. Não foi diferente comigo, mas desta vez, logo depois de assistir ao documentário abaixo, não foi só a revolta que surgiu em meus pensamentos. Durante todo o filme fui lançado de encontro a um turbilhão de pensamentos: desde a reação natural, de ficar horrorizado até a reflexão de que às vezes julgamos as pessoas, de maneira geral, muito superficialmente, sem saber toda a sua história. Talvez isso não faça sentido agora, mas daqui a pouco você entenderá melhor.
Peço que o leitor pare o que estiver fazendo durante alguns minutos do seu dia para acompanhar esse documentário de 23 minutos produzido pela HBO no ano de 1992, e que trata de uma garotinha chamada Beth Thomas.

Ao assistirmos o filme, nos deparamos com a pequena Beth, de apenas 6 anos e meio. Beth não é uma criança normal, ela guarda dentro de si um ímpeto assassino. Um ímpeto que espanta até os adultos, que horrorizados não sabem como lidar com a situação. Descobrimos que a meninas gosta de enfiar alfinetes em animais, matar passarinhos com as próprias mãos e de perseguir seu irmão mais novo, Jonathan, agredindo-o frequentemente com socos e pontapés, chegando ao ponto de tentar matá-lo batendo sua cabeça no concreto. Beth não esconde do entrevistador/psicológo seu desejo de ver seus pais e seu irmão mortos. 


Pessoas gostam de crianças, nossa tendência é nos envolvermos muito mais emocionalmente ao que se refere a elas. E logo no início do vídeo, ficamos chocados ao notar uma menina acometida por uma psicopatia terrível. Sua voz é calma e seu comportamento demonstra uma tranquilidade espantosa enquanto conta as suas “travessuras”.

Na continuidade do filme entendemos as origens de tal comportamento: Beth, então com 1 ano de idade, era violentada frequentemente por seu pai biológico e este trauma era responsável por esse transtorno extremo em sua personalidade. E de fato, em crianças, o sofrimento de um abuso tão intenso é muito mais prolongado, pois elas contam com menos recursos, tanto físicos ou psicológicos, para sua própria defesa. Não possuem uma visão de mundo formada e nem a consciência total das coisas, absorvendo para si toda a dor e sofrimento que passaram, com marcas muito profundas e que ecoam por muitos anos em suas memórias relacionadas a primeira infância. A psicologia geralmente associa tais transtornos de personalidade a pessoas que sofreram abusos ou algum trauma na infância, demonstrando que deliquentes violentos geralmente são fruto de um lar repleto de agressões e falta de carinho.

Resolvi levantar a questão desse documentário porque não é simplesmente um registro audiovisual, através das entrevistas realizadas com a garota de que traumas de infância geram psicopatas assassinos, e sim, porque no decorrer do video acompanhamos a trajetória da pequena Beth em sua recuperação. Quando ela é levada ao cuidado de pessoas especializadas e que mostram que é possível reverter uma boa parte dos danos causados pelos traumas adquiridos. No final do vídeo percebemos nitidamente que já não se trata da mesma garotinha do ínicio da história.

Isso me fez repensar muitos conceitos que acabamos adotando. Por exemplo: quantos de nós, ao ler uma noticia no jornal relacionada a um assassino psicopata, ao se deparar com a descrição dos atos cometidos por tais indíviduos, não quisemos nós mesmos fazer justiça com as próprias mãos? Ou então desejar a existência da pena de morte para punir essas pessoas? Entretanto, após assistir um documentário como esse, fica diíficil não pensar que poderia ter ocorrido com essas pessoas o mesmo que ocorreu a Beth, mas que nesse caso, infelizmente não tiveram a oportunidade nem ajuda de superarem seus traumas.
Não venho aqui fazer um discurso em defesa dos assassinos, pois todo ato de crueldade e barbárie deve ser punido com o rigor da lei. O que proponho é um olhar mais atento às causas de tais fatalidades. Quantos casos como de Beth não acontecem no mundo? E quantas pessoas tem a oportunidade de obter ajuda?

Para ilustrar mais a situação, essa semana li a notícia sobre o suícidio de Carlos Alexandre Azevedo, que quando criança foi torturado na ditadura com apenas 1 ano e 8 meses, levando consigo o fardo deste trauma que o perturbou por todos os seus 40 anos.

Este é um dos casos em que a vítima guarda o sentimento para si e acaba vivendo o trauma de maneira introspectiva. No entanto, há casos, e esses bem mais explorados pela mídia, onde ocorre o contrário: a vítima se torna o algoz e acaba descontando sua revolta na sociedade através de atrocidades terríveis. Um exemplo, dentre outros, pode ser do assassino em série americano Jeffrey Dahmer. Deixo o link de uma entrevista completa com o assassino, onde comenta sobre suas motivações e seu passado.

Para finalizar, citarei apenas mais um caso de um mulher: Aileen Wuornos e a história que rendeu um filme sobre sua vida. “Monster” de 2003 é estrelado por Charlize Theron que levou a estatueta do Oscar por sua interpretação. O filme mostra bem a realidade da psicopata. Aileen sofreu muito quando criança e morava com seu pai, sofria sucessivos estupros por um amigo dele e acabou caindo na vida de prostituição ainda adolescente. Com certeza, uma parte da perturbação dela surgiu desses eventos infelizes. Aqui também segue uma entrevista com a assassina um dia antes de ser executada, onde ficam evidentes seus transtornos psicológicos.
http://www.youtube.com/watch?v=479eBO19pR8

Encerro o texto falando ainda da pequena Beth: hoje ela é uma pessoa que vive uma vida completamente normal, tem sua família e participa da recuperação de outras crianças, que como ela, também sofreram abusos e apresentam algum tipo de transtorno.

beththomasbiophoto[1]

O tema é assustador e incomoda, sendo algo em que não costumamos pensar. De qualquer forma, o que levanto aqui é a reflexão sobre o efeito e a causa. Se analisarmos todos estes casos, desde o momento em que uma criança é abusada até as mais drásticas consequências deste fato, veremos que muitas vezes temos o complexo da mente descontinuada. Abandonamos a imagem da garota Beth e da empatia em que por ela nos envolvemos quando queremos negligenciar as causas que levaram uma pessoa a ser tornar um psicopata, pois o que vemos no jornal é somente a conclusão de todo o processo traumático.

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7 pensamentos sobre “Vítimas assassinas

  1. Ahlan Dias disse:

    O tema que por vezes pode ser classificado como profundo, é facilmente deixado de lado – às mãos dos especialistas da mente. Da psicanálise do século 19 ao passo das atuais neurociência e genética, as origens do comportamento violento desenfreado é estudado a fundo. No entanto, abrir o tema à sociedade e concatenar esses conceitos científicos com o nosso “modus-vivendi-metropolis” é ainda uma prática distante.

    Muito trabalho que traduz esse universo paralelo dos transtornos psíquicos está disponível em livros-reportagem, documentários, no acesso público à informação e além. No entanto, o “interesse público” é direcionado na educação para outros vetores, certo?

    A pouca relevância da filosofia e da sociologia nas escolas – em detrimento de estatísticas que corroborem um índice de desenvolvimento “apresentável” – figura bem para onde (ainda) estamos rumando: um “deixa que eu deixo” por parte da massa. E nessa massa, se inclui também a “massa falida” da máquina pública, que precisa se preocupar com seus nada triviais “custos operacionais”.

    Até onde eu percebo, as pessoas ainda demonstram medo do que é “louco”, do que é “manicomial”. Esse medo não contrastado no dia a dia – pela curiosidade humana – cega rápido. E seres humanos que precisam de afeto crescem no limbo, à margem, no bico da pele.

    A afetividade nos lares é uma questão intrínseca e quase que de sorte de quem nasce?

    Acredito que as escolas e o meio ambiente dos cidadãos, até a pré-adolescência, são muito relevantes nessa crescente. Inclusive na interação com os adultos. Uma escola onde a interdisciplinariedade e os valores humanísticos são levados em prioridade, tende a imprimir nos ecos familiares importantes contribuições de novas perspectivas às gerações anteriores.

    A história âncora do texto é realmente intrigante. Cheguei a pensar se Beth e suas entrevistas foram estudadas por atores de cinema. Assim como tantos serial-killers e pessoas acometidas por distúrbios psíquicos crônicos.

    O texto esmerado, aberto e convidativo é uma baita iniciativa. Vem de encontro à um pensamento pró-ativo, onde deixa para trás, mesmo que em uma fresta de tempo, a afasia social que vende lemas como “os cientistas que resolvam!” Vamos desaprender isso. Tomemos nossos elixires de amnésia e esqueçamos um pouco esse estilo de vida onde só se paga por serviços. Daqui a pouco vamos precisar de insights matutinos à R$ 9,90 mensais?

    Comecemos por debater, por fazer nascer ideias, conceitos. Essa síndrome por deixar parir à todo tempo, sem estar ali, no nascedouro, nos deixa fácil à mercê das “cesarianas” intermitentes de eventos. Até aquela hora fatídica, onde começa-se a reclamar e reclamar… e praguejar… até esquecer.

  2. Excelente texto Léo, muito bem ilustrado. Ficou excelente. Nos leva a uma reflexão profunda de nossas vidas, nossas profissões e a sociedade em que vivemos. Cada dia que passa ficamos mais individualistas, queremos soluções rápidas e simples para tudo, não ligamos pro sentimento dos outros, estamos preocupados apenas com os nossos. Parece que é mais simples tirar uma vida do que tentar resgatá-la, dar uma nova chance. Não é defender bandido, é querer descobrir a verdadeira causa que os levam a cometer determinados crimes e lhe dar uma pena que realmente o modifique. E porque pessoas que realmente deveriam ir atrás dessas informações não vão? Por que jornalistas (comunicadores em geral) não mostram isso em seus veículos de comunicação? Por que os políticos não tomam medidas diferentes? Por que não começam a tratar o povo como seres humanos e não apenas como números e estatísticas? Será que é muito trabalho? Será que não querem dar liberdade para sociólogos, filósofos e psicólogos exercerem trabalhos com essas pessoas e até com nós mesmos? Faço essas perguntas quando me deparo com cenas de selvageria que encontramos diariamente. Mas realmente acho que quem detém o poder (político, econômico ou midiático) também tenha sofrido algum tipo de abuso, pessoas que sentem prazer em matar milhões apenas com uma caneta ou pessoas que sentem prazer em noticiar tragédias e mais tragédias. Parabéns Léo, obrigado pela reflexão. Abraço.

  3. Me interesso pelo assunto, principalmente quando se trata de Serial Killers (não, eu não gosto de Dexter. E sim, eu recomendo os livros da Ilana Casoy sobre o assunto). Sou totalmente a favor da pena de morte assim como sou a favor do tratamento pra essas pessoas. Pra mim, a severidade da punição letal deve existir como último recurso nesses casos (assim como um policial apenas deve atirar em alguém em último caso – fazendo um rápido paralelo).

    Acredito na recuperação plena de uma pessoa abusada quando criança, mas sem descartar uma pena equivalente aos danos que ela causou (ou seja: a morte, nos casos constatados irreversíveis).

    Sim, é uma pena dura. Tão dura quando as lápides de centenas de vítimas inocentes.

  4. Tiago Morini disse:

    Isso é algo bastante triste, mas é bom saber que se vistos os sinais de psicopatia cedo, há tratamento. Há dois livros que eu li, que falam sobre esse lado humano de psicopatas assassinos, um é o À Sangue Frio, do Truman Capote, que conta a história de uma família que é assassinada no Kansas, e o outro, O Homem de Gelo – Confissões de um matador da Máfia, do Philip Carlo, que é a biografia do maior assassino já registrada. Recomendo os dois.

  5. Esse assunto é daqueles que nunca perde a relevância. Já tinha visto o curta documentário sobre a menina e até tenho o filme Monster, em DVD.
    Uma das coisas que eu sempre penso é que por mais monstruoso que um ser humano possa ser ele ainda é um ser humano. Por isso sou fortemente contra a pena de morte. Não cabe à sociedade tirar a vida de alguém, mesmo que a pessoa “mereça”.
    Não tenho dado nenhum pra afirmar, mas se fosse chutar eu diria que a grande maioria dos assassinos, estupradores e pedófilos têm algum histórico que deva ter contribuído pra esse comportamento. Claro que nada justifica tais atos, mas analisando o meio de criação dessas pessoas da até pra entender porque elas fazem isso. É uma questão de ação e reação. Ninguém é naturalmente bom e ninguém é naturalmente mal.
    Claro que uma punição severa é cabível a esses indivíduos, mas o estado não os vê como pessoas normalmente, os vê como uma fatia problemática da sociedade. Matar ou jogar numa cadeia comum pelo resto da vida é simplesmente mais ‘fácil’.

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