Um ícone de nome Chávez

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22 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Tulio Fonseca

(Convidado especial)

549275_4574905929893_1321383761_nDesde o início de dezembro do ano passado, persegue-me uma incômoda insegurança política. O fato gerador – a nova internação do comandante venezuelano Hugo Chávez, chegou a me surpreender, o que me levou a observar mais a fundo quais seriam as razões.

É bem verdade que vivi mudança acentuada de minha percepção do ambiente continental a partir da viagem a Cuba, como uma das 252 pessoas que participaram da 6ª Brigada Internacional 1º de Maio, um movimento de solidariedade à Ilha que, em maio de 2012, reuniu representantes de 22 países.

Nos 17 dias em que estive brigadista naquele país, percebi o quanto nós Brasileiros somos menos integrados às lutas de nossa América Latina do que os demais vizinhos de continente. Uma das barreiras, é preciso ressaltar, é a língua. Mas ela não pode ser culpada por isso. A impressão que tive é que o Brasil tem sangue mais frio que o de nuestros hermanos.

Durante aqueles dias, pudemos perceber que Hugo Chávez era sempre lembrado com muito carinho e respeito tanto por cubanos quanto por demais países latino americanos. Mas afinal de contas quem é Chávez?

Nascido em 1954, Hugo Rafael Chávez Frías é militar venezuelano e elegeu-se presidente daquele país em 1998. Foi preso por liderar um fracassado golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez em fevereiro de 1992, ocasião em que, paradoxalmente, Chávez fora tratado como herói pelo povo venezuelano.

Entre os motivos de Chávez, a traição de Pérez. Embora houvesse sido eleito em 1988 com discurso anti-FMI, ao tomar posse como presidente, aceitou pacote neoliberal ditado pelos Estados Unidos e pelo fundo. Isso trouxe a partir de então uma série de dificuldades para a população do país. Pérez acabou sofrendo impeachment em 1993, quando assumiu Rafael Caldera, que venceu ao romper com seu partido e aliar-se à esquerda. Mais tarde, faria novamente o caminho inverso e se jogaria nos braços do FMI, colocando o país mais uma vez em dificuldades.

Pouca gente costuma dizer, mas Chávez venceu outras três eleições consecutivas na Venezuela democraticamente e passou a aprofundar mais e mais as reformas no país. Uma delas diz respeito às relações internacionais. Chávez se aproximou de Cuba, com quem fez alianças trocando petróleo por serviços médicos e professores. Foi fundada a ALBA – Alternativa Bolivariana para as Américas, que uniu também Bolívia, Equador, Dominica, São Vicente e Nicarágua, fazendo um contraponto à ALCA – Área de Livre Comércio das Américas, capitaneada pelos Estados Unidos.

A revista Carta Capital destacou alguns resultados obtidos com os governo Chávez. O crescimento médio do PIB no período estudado é de 2,75%. Abaixo dos 3,20% do Brasil, mas acima dos 2,39% do México, por exemplo. A inflação registrou melhoras com relação ao seu antecessor quando chegava a 36%, mas segue em elevados 20% anuais.

Em compensação os resultados de programas sociais merecem bastante destaque. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO, a população atingida pela pobreza sai de 20% em 2002 para apenas 2% no ano de 2012. E o índice Gini – que mede a desigualdade social, aponta para um queda de 0,4865 em 1992 para 0,3929 em 2012, colocando a Venezuela no patamar de país menos desigual da América Latina. Para efeitos comparativos, no Brasil o índice alcançado é de 0,5427. No Gini, quanto mais um país se aproxima do valor 1, mais desigual é a distribuição de renda e riqueza. Quanto mais próximo de zero, mais igualitário será aquele país.

Os números da educação também são significantes. De acordo com o GIS XXI – Grupo de Pesquisa Social Siglo XXI, entre 1998 e 2011 o número de crianças matriculadas na fase “inicial” saltou de 43% para 71%. No ensino médio saltou de 48% para 73%. Os dados relativos à matrícula universitária mostram um crescimento de 298% no período. Hoje, na Venezuela, 52,2% dos alunos matriculados vêm das classes D e E.

Se o dever de casa tem garantido a Chávez maioria de votos entre a população, tem também incomodado as oposições daquele país. Entre os opositores estão setores da mídia, o governo dos Estados Unidos e o FMI. Prova disso, foi a tentativa de golpe em abril de 2002, quando Chávez foi capturado e a Venezuela passou a ser comandada pelo empresário do petróleo Pedro Carmona.

Ao assumir o comando do país, Carmona mostrou a que veio. Rompeu com Cuba, revogou a Constituição e anunciou a privatização do petróleo rompendo com a OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Carmona permaneceu no poder por pouco mais de um dia. Foi retirado pelas massas e pelo exército. Chávez foi então reconduzido ao poder. Mas o ímpeto imperialista ainda não diminuiu. No dia 20 de fevereiro deste ano, a porta-voz estadunidense Victoria Nuland declarou que Washington deseja ver uma “transição” na Venezuela, caso Chávez não consiga retornar ao poder.

Se a distância, as fronteiras e a língua impedem muitos de nós de acompanhar em detalhes o que acontece com nossos vizinhos de América, as tentativas desesperadas de golpear a democracia venezuelana conseguem nos deixar claras realidades e objetivos. A Venezuela atrapalha bastante os planos Estadunidenses.

Chávez se tornou um ícone para movimentos de esquerda mundo afora. Enfrentou o poder da mídia de seu país sem cercear a liberdade de expressão, ou mesmo ferir a democracia, provocou reformas importantes ao expropriar latifúndios para a reforma agrária, ao estatizar empresa transnacionais e ao defender interesses de seu povo. E foi corajoso ao enfrentar setores poderosos de seu país como a mídia. Sob seu comando a Venezuela realizou 15 eleições e/ou referendos com participação expressiva da população. Destes, Chávez perdeu apenas um.

Ao identificar sua doença, o comandante optou por ser tratado em Cuba, dando mostras de confiança inabalável no sistema de saúde e nos profissionais que prestam esse serviço na Ilha. Deu recado claro: somos parceiros inseparáveis de Cuba.

Quando de seu retorno à Venezuela nesta semana, Chávez recebeu das mãos do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, uma carta cheia de significados. Registro aqui pequena parte do texto do comandante cubano que diz: “quando o campo socialista se derrubou e a URSS se desintegrou, o imperialismo, com o punhal afiado de seu bloqueio, propunha-se a afogar em sangue a Revolução Cubana; Venezuela, um país relativamente pequeno da dividida América, foi capaz de impedi-lo”. Num gesto importante de reconhecimento, Fidel ainda lembra que outros países “das Antilhas, Centro e América do Sul” foram ajudados pela Venezuela.

Tenho comigo que, se pecou pela dificuldade de prever o futuro, evitando, ou adiando mais e mais, a preparação de quem pudesse substituí-lo em sua jornada socialista, Chávez vai ser lembrado como um guerreiro que há pelo menos 15 anos vem sendo reconhecido como incômoda pedra nos sapatos do Tio Sam. A resistência e a unidade venezuelana avisam que a América Latina não faz parte do quintal do Império Yankee.

Longa vida ao comandante venezuelano!

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Tulio Fonseca

Tulio Fonseca é graduado em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda · pela UNI-BH com especialização em Gestão Pública Municipal – Ênfase em Cidades · pela PUC-BH.

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