Como mostrar sofrimento e beleza em uma canção ou em muitas…

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19 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe

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Legião-Urbana-11Não sei porque, mas nos últimos dias me deu uma grande vontade de escutar Legião Urbana, algo que não fazia havia muito tempo. Escutei de tudo, dos discos em estúdio aos shows postados no youtube passando pelo tributo a Legião realizado pela MTV com a participação de um Wagner Moura enlouquecido.

Talvez tenha sido a aproximação de mudanças que acontecerão em minha vida nos próximos dias. Até hoje tudo de novo que aconteceu comigo foi embalado pela música dessa banda então, nada mais natural, que eles reaparecessem nesse momento. O certo é que eu me senti com quinze anos novamente, em um tempo em que a única obrigação era decorar letras de música e, no topo da lista, estava Faroeste Caboclo que, diga-se de passagem, nunca mais esqueci.

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Capa do disco A tempestade ou O livro dos dias

Nessa de ir e vir entre as canções da Legião, me deparei novamente com o disco A Tempestade ou O Livro dos Dias. Disco que vendeu mais de meio milhão de cópias no Brasil Essa foi a última obra da banda com o vocalista ainda vivo, lançado em 20 de Setembro de 1996, seis dias antes de eu completar nove anos de idade e menos de um mês antes da morte de Renato Russo. Na época ainda era criança demais para entender o que estava acontecendo, lembro que foram dias conturbados. Minha irmã chorando no quarto, com as imagens dos três caras que cantavam aquelas músicas legais pendurados na parede, e aquele monte de matérias na TV falando que o líder de uma das maiores bandas brasileiras havia falecido em decorrência de uma doença estranha chamada AIDS.

Hoje, consigo dimensionar o que estava acontecendo. Quando ligo o rádio e ouço “hoje eu vou de limousine, mas eu já andei de trem” ou “Dezessete, patinete, de ladinho a gente mete”, nada parecido com “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” eu entendo o desespero daquela garota de 16 anos trancada no quarto chorando aos soluços por um homem que ela nem sequer conhecia.

Quem, entre aquele 20 de setembro de 1996 e 11 de outubro do mesmo ano, teve a oportunidade de escutar as 15 faixas com duração de pouco mais de 67 minutos de A Tempestade ou O Livro dos Dias, já sentia que nada estava bem e podia viver um pouco da dor do compositor, podia perceber que ele também era, parafraseando Raul Seixas, “humano, ridículo, limitado. Que só usa dez por cento de sua cabeça animal”, e que, mesmo tendo mudado a vida de milhões de pessoas, sofria, tinha dor e solidão, sabia que não duraria muito tempo nesse mundo.

Já na primeira música do disco, podia-se sentir um Renato Russo menos voraz na interpretação, mas impetuoso na composição “Ter esperança é hipocrisia, A felicidade é uma mentira” assim deve ser quando não há mais esperança e para completar ele arremata com “É complicado estar só Quem está sozinho que o diga, Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quando tudo é solidão”
estando rodeado de amigos, o isolamento pode ser ainda pior. Ainda assim, a canção tem um final arrebatador, com um fio de confiança, quando se ouve

É NOT-morte-do-cantor-renato-russo-completa-15-anos1318359161preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de quatro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza

Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
Quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você

Um último fôlego na tentativa de sobreviver.

O disco segue e vai ficando cada vez mais triste. L’Aventura, ecoa como um grito de socorro. “Não precisa vir Se não for pra ficar Pelo menos uma noite
E três semanas”
não adianta estar presente se o sentimento é outro. Ainda hoje, mas principalmente nas décadas de 1980 e 1990, a AIDS era vista com grande preconceito e as pessoas se afastavam então como “querer bem a quem não sabe perdoar”? Uma juventude de festas e amor ficara para trás e não tinha mais volta “E nem o céu é belo e prateado E o que eu era eu não sou mais E não tenho nada pra lembrar”

A faixa três, Música de trabalho, com acordes raivosos, inicia relembrando os primeiros anos da banda, quando as letras, politizadas, lutavam por um Brasil digno para todos “Mas o que eu tenho É só um emprego E um salário miserável Eu tenho o meu ofício Que me cansa de verdade Tem gente que não tem nada E outros que tem mais do que precisam” e continua criticando a sociedade, o sistema econômico, a polícia

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Sei que existe injustiça

Eu sei o que acontece

Tenho medo da polícia
Eu sei o que acontece
Se você não segue as ordens
Se você não obedece
E não suporta o sofrimento
Está destinado a miséria”

Mas termina com o desabafo de quem sente falta de alguém para viver “E quando chega o fim do dia Eu só penso em descansar E voltar p’rá casa pros teus braços”.

Nos 4 minutos e 25 segundos seguintes, o coração daqueles que perderam alguém sangra como no dia em que o outro partiu. Não querer apaixonar-se, amar, sentir, ter somente dor e tristeza. A canção Longe do meu lado mostra o quanto Renato Russo estava deprimido nos últimos dias de sua vida.

A paixão já passou em minha vida
Foi até bom mas ao final deu tudo errado
E agora carrego em mim
Uma dor triste, um coração cicatrizado
E olha que tentei o meu caminho

A canção termina e os acordes seguintes parecem ser uma luz no fim do túnel de tristeza do disco. Doce ilusão. Uma das mais belas músicas compostas por Renato Russo e, por que não, uma das mais belas compostas por artistas brasileiros, A Via Lactea é uma lufada de esperança

homeQuando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz

Que se esvaece a cada estrofe

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Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima

Com certeza, as estrelas não foram suficientes para contabilizar as lágrimas que os fãs derrubaram naquele outubro de 1996 e que, ainda hoje, continuam derrubando.

Em Música Ambiente, Renato Russo assina o próprio atestado de óbito e reconhece que falta pouco

Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.

Com a sutileza e a genialidade que só Renato Russo tinha, ele dá um soco no estômago da sociedade brasileira quando, em Aloha, fala do preconceito e do sofrimento dos jovens brasileiros, depositando a esperança nas gerações seguintes

E meus amigos parecem ter medo
De quem fala o que sentiu
De quem pensa diferente
Nos querem todos iguais
Assim é bem mais fácil nos controlar
E mentir, mentir, mentir
E matar, matar, matar
O que eu tenho de melhor: minha esperança
Que se faça o sacrifício
Que cresçam logo as crianças.

Ser gay e portador do vírus HIV em um país preconceituoso e atrasado não deve ter sido fácil. Ser abandonado pelos amigos por ser “diferente” e ainda conseguir cantar isso de forma tão bonita, é difícil imaginar alguém fazendo isso atualmente.

Em Soul Parsifal, parceria com a cantora e compositora Marisa Monte, é perceptível que nem tudo está perdido, que algo ainda pode ser bom e que, apesar de tudo, sobreviver depende só dele

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Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir

O disco segue com Dezesseis, canção de enorme sucesso na época, mas que, mesmo fugindo do sofrimento causado pela dor da doença e da solidão, tem como fio condutor a morte de um jovem

E o que dizem que foi tudo
Por causa de um coração partido

Chegamos a Mil pedaços, precisa falar algo mais com um titulo como esse? Não consegui selecionar um trecho dessa música para postar, qualquer coisa que ficasse de fora a deixaria incompleta, então segue a letra inteira com toda a sua tristeza de quem sofre com o abandono da pessoa amada

Eu não me perdi,
E mesmo assim você me abandonou…
Você quis partir, e agora estou sozinho
Mas vou me acostumar..
com o silêncio em casa, com um prato só na mesa.
Eu não me perdi,
O Sândalo perfuma o machado que-o feriu
Adeus, adeus ,adeus meu grande amor.
E tanto faz.. de tudo o que ficou,
Guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita.
Eu não me perdi,
e mesmo assim ninguém me perdoou..
Pobre coração – quando o teu estava comigo era tão bom.
Não sei por quê acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser: Vou fugir dessa dor.
Meu amor
se quiseres voltar – volta não

Porque me quebraste em mil pedaços.

Sem medo de assumir a sua orientação sexual em suas letras, Renato, fala do desejo de ter alguém ao seu lado naquele momento nos cinco minutos de Leila

E você diz daquele seu jeito:
– Ai, eu preciso de um homem! –
E eu digo: – Ah, Leila, eu também! –
E a gente ri

E de novo o abandono, tema central do disco na canção 1º de julho

Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez
O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti

Em seguida, o momento mais duro. Uma confissão da dor que se sente com um das frases mais fortes e impactantes da música brasileira ”É de noite que tudo faz sentido No silêncio eu não ouço meus gritos” Em Esperando por mim, Renato fala daqueles que, mesmo no momento mais difícil de sua vida, sempre estiveram do seu lado. Da dor que sentia durante a fase mais grave da doença e de como tentava se proteger do mundo e da solidão que sentia.

imagesffahE o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem

Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem os nossos dias serão para sempre.

Em Quando você voltar, faixa 14 do disco, Renato deixa uma lição para os que ficarem quando ele se for. Aproveite a vida, não perca tempo com discussões bobas e lembre-se de dizer eu te amo.

Meu amor, cuidado na estrada
E quando você voltar
Tranque o portão
Feche as janelas
Apague a luz
e saiba que te amo…

Para finalizar um dos álbuns mais tristes do rock nacional, a canção O livro dos dias, um forte desabafo em relação a doença que está lhe tirando as forças

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Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

Depois de 17 anos da morte do compositor, as letras escritas por ele, sejam as políticas, de amor ou de abandono, se encaixam perfeitamente e continuam embalando a vida de jovens e adolescentes de todo o país.

Como renato costumava dizer “FORÇA SEMPRE!”

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