Antiamericanismo revisitado

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18 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Pedro Magrini

antiamericanismo_06_cmyk-okokDe repente minhas certezas se afogaram. Um único fato catalisou mudanças rápidas e de proporções inimagináveis. Militância, idealismos, amor(?), amizades e família se resignificaram nos últimos tempos. O que parecia eterno acabou e o que estava certo e óbvio ficou turvo e precisou ser revisitado. Entre tantas coisas que ebuliram em uma cabeça perturbada e arrasada, foi o meu antiamericanismo (Entendam “antiestadunidensismo”). Sempre houve uma aura antiamericana em minhas escolhas cotidianas, especialmente na academia. Tudo isso por conta, obviamente, de um imperialismo estadunidense que causa repulsa e ódio devido aos desmandos unilaterais econômicos e políticos pelo mundo e, sobretudo, pelos genocídios cometidos diretamente no Japão, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, além do apoio às diversas ditaduras em todo o mundo, inclusive no Brasil. Mas até que ponto podemos generalizar e negar uma cultura tão influente? Até onde é possível valorizar as virtudes desse país, seja culturalmente, nos costumes e/ou nas lutas sociais sem se render as análises reducionistas e descontextualizadas de terra da liberdade, da democracia e das oportunidades? Acho perfeitamente possível valorizá-los sem perder a criticidade.

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Jimi Hendrix

Chego a essa conclusão, pois vivo cercado de influências e paixões estadunidenses. Não me refiro aqui a cultura de consumo capitaneada por McDonald’s e Coca-Cola, apesar de gostar dos dois, mas a música, o cinema, a literatura e as produções acadêmicas. Não sou ingênuo e ressalto que grande parte dessa difusão cultural pelo mundo não ocorreu por acaso, mas como consequência da força de mercado e do processo imperialista do país. Contudo, ressalto também a excelente qualidade de parte dessa cultura e o potencial contestador do povo. Não consigo me imaginar vivendo sem o blues, o jazz e o rock and roll, todos de origem estadunidense e predominantemente afro-americana. Ray Charles, Billie Holiday, Louis Armstrong, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Elvis Presley e bandas como Creedence, Nirvana, Pearl Jam e Rage Against de Machine, só para citar minha paupérrima lista pessoal feita de improviso de alguns ícones musicais. Sem o cinema de Wood Allen, Tim Burton, Francis Ford Coppola, Spike Lee, Martin Scorsese e Quentin Tarantino, em mais uma lista de improviso, (Cadê as mulheres?) a sétima arte não seria a mesma. Na academia, também venho tendo grandes surpresas e várias pensadoras me inspiram nas discussões pertinentes aos meus estudos, entre elas: Judith Butler, Kimberlé Crenshaw, Carmen Deere, Nancy Fraser, Sandra Harding e Joan Scott.

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Martin Luther King

Mais do que isso, e tentando superar a obviedade das exemplificações citadas acima, quero lembrar o potencial questionador de uma sociedade que contribuiu muito com os movimentos sociais pelos direitos civis e pacifista. Ativistas como Malcom X, Martin Luther King, Bell Hooks e Harvey Milk são apenas alguns nomes emblemáticos de lideranças que lutaram contra os preconceitos de raça e gênero nos Estados Unidos. Vou além, inspiraram lutas sociais por todo o mundo.

Quero deixar bem claro o repudio que tenho frente à política externa dos EUA e o uso de sua força bélica a serviço dos interesses de mercado em suas empreitadas imperialistas, mas quero também aqui desatar algumas amarras que podem instigar o ódio e prejudicar o desfrute de uma cultura muito rica e hipocritamente negada, ou falsamente negada por algumas pessoas. Não estou afirmando que há um antiamericanismo capilarizado na sociedade brasileira, esse movimento é mais localizado em certos setores e grupos sociais, que como eu, sempre negaram pensadores(as), às vezes a música e até o cinema, sempre o estigmatizando de hollywoodiano, por exemplo. Sugiro modestamente que revisitem suas certezas, mantenham sua criticidade frente às desigualdades e as opressões, mas não incitem o ódio, não sejam antiamericanos.

Malcolm X

Malcolm X

Para encerrar, sempre com dicas de filmes, pretendo sugerir dois de uma vez. Ambos mostram a trajetória de ativistas acima citados, Malcom X e Harvey Milk. (1) Com direção de Gus Van Sant, o filme MILK – A voz da igualdade (2008) traz uma atuação fabulosa de Sean Penn e pode ser baixado no link do blog do Laranja Psicodélica (http://www.laranjapsicodelicafilmes.blogspot.com.br/2013/02/milk-voz-da-igualdade-2008.html) e com crítica de Pablo Villaça no site Cinema em Cena no link (http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/filme/ver.php?cdfilme=6637). (2) O outro filme em questão é Malcom X (1992) que também traz uma atuação poderosa de Denzel Washington no papel principal, além da direção de Spike Lee. (Infelizmente não achei o link do filme e da crítica).

Até semana que vem!!!

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2 pensamentos sobre “Antiamericanismo revisitado

  1. Também não sou partidário do imperialismo bélico dos Estados Unidos e fico feliz que ele tenha perdido potência nos últimos anos devido a crise e ao crescimento desenfreado de outros mercados como o da China ( mesmo imaginando até que ponto uma crise não pode ser simplesmente elaborada num conchavo entre poderosos, mas isso soa muito paranóico e cheira a teoria da conspiração barata). E também compartilho das experiências relacionadas ao que tem de bom a cultura americana em termos gerais como os citados pelo amigo.
    Lendo o artigo lembrei de uma entrevista do Lobão que assisti a pouco tempo e acho que tem a ver com o contexto sugerido. Lobão faz comentários pertinentes, apesar de que, e aqui vale frisar, eu não ser um seguidor do artista polêmico, acabo concordando com ele.
    Segue o link, abraço!

  2. Guilherme disse:

    Um Gênio …. A beleza do ser humano inteligente e expor seu pensamento embasando seus raciocinios, criticando muitas vezes mas com classe e propriedade meus cumprimentos ao autor

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