Neruda e os malditos ditadores

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16 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

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Pablo Neruda2

Pablo Neruda

No último dia 09 de fevereiro, a justiça chilena ordenou a exumação dos restos mortais do poeta Pablo Neruda, como parte de uma investigação sobre as causas de sua morte, ocorrida em 1973.

Neruda faleceu em 23 de setembro de 1973, 12 dias após o golpe militar que derrubou o presidente socialista Salvador Allende e levou ao poder o ditador, general Augusto Pinochet.

As investigações, iniciadas em 2011, apresentam indícios de que ele tenha sido envenenado. O poeta, que não gostava de ser chamado de político, era um contumaz opositor do regime ditatorial de Franco na Espanha e apoiador de Allende no Chile e, por isso, odiado por Pinochet.

Abaixo transcrevo o poema escrito por Pablo Neruda sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), e que retrata de forma incrível a beleza de Espanha antes da guerra e o horror criado pelo ditador Francisco Franco.


Explico algunas cosas

Perguntam-me: onde estão os lírios?

E a metafísica coberta de papoulas?

E a chuva que muitas vezes golpeava

suas palavras enchendo-as de frestas e pássaros?

Vou lhes contar tudo o que me passa.

Eu vivia num bairro de Madrid, com campanários,

com relógios, com árvores.

Dali se via o rosto seco de Castela

como um oceano de couro.

Minha casa era chamada

a casa das flores, porque por todas as partes

brotavam gerânios: era uma bela casa

com cachorros e crianças.

Raul, lembra? **

Lembra, Rafael? **

Frederico, lembra? **

Debaixo da terra,

lembram da minha casa com balcões

onde a luz de junho afogava flores em suas bocas?

Irmão, irmão!

Tudo

era burburinho de vozes, o sal das mercadorias

aglomeração de pão palpitante,

mercados de meu bairro de Arguelles com sua estátua

como um tinteiro pálido entre as merluzas:

o azeite chegava em colheres,

uma profunda palpitação

de pés e mãos enchia as ruas,

metros, litros, essência aguda da vida,

pescados amontoados,

contextura dos tetos com sol frio no qual

a flecha se fatiga, delirante marfim fino das batatas,

tomates se espalhando até o mar.

E numa manhã tudo estava ardendo,

e numa manhã fogueiras saiam da terra

devorando seres,

e desde então fogo,

pólvora desde então,

e desde então sangue.

Bandidos com aviões e mouros,

bandidos com anéis e duquesas,

bandidos com padres de preto abençoando-os

vinham pelos céus a matar crianças,

e pelas ruas o sangue de crianças

corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais rechaçariam,

pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,

víboras que as próprias víboras odiariam!

Frente a vocês vi o sangue

de Espanha levantar-se

para afogá-los em uma só onda

de orgulho e de punhais!

Generais traidores:

olhem minha casa morta,

olhem a Espanha dilacerada:

porém de cada casa morta sai metal ardendo,

em vez de flores,

porém de cada ferida da Espanha desperta a Espanha,

porém de cada criança morta levanta-se um fuzil com olhos,

porém de cada crime nascem balas

que acharão um dia o vosso coração.

E me perguntam: por que os seus poemas

não falam dos sonhos, das folhas,

e dos grandes vulcões de seu país natal?

Venham ver o sangue pelas ruas,

venham ver o sangue pelas ruas,

venham ver o sangue

pelas ruas!

Pablo Neruda

De España en el corazón

** Neruda, provavelmente, está se referindo aos poetas Rafael Alberti,
Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro. Lorca foi assassinado por nacionalistas durante a guerra. Segundo um juiz, ele era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”.

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