Seu João e as putas do Bom Retiro

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5 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

Eliton Felipe

Continuando o texto sobre um ilustre quase desconhecido da cidade, mas que em breve terá sua identidade e história revelados, vou falar sobre um caso peculiar na vida dele e de muitos joinvilenses. Como sempre, os nomes aqui citados são fictícios.

Em 1951, os pais do Seu João tiveram de tomar uma decisão que mudaria a vida de toda a família. Cientes de que, em um lugar tão pequeno e distante, não haveria grandes possibilidades para os filhos, o patriarca resolveu que já era hora de deixar o campo para trás.

carroça

Certa noite, enquanto os irmãos dormiam, João rolava em sua esteira ouvindo a conversa na cozinha.

– Aqui a terra é cansada e não tem futuro para essas crianças, o que eles vão fazer? Ficar aí na roça analfabetos? – Dizia o pai.

Assim que puderam venderam suas terras. Era o começo de uma nova vida. A mãe, Maria, e a filha mais velha Joana, arrumaram as malas com as poucas peças de roupas que possuíam enquanto o pai e os meninos preparavam a carroça. Animais atrelados e encangados e as crianças foram se ajeitando, cada uma no seu lugar. Na parte de trás foram Marcos, o nosso herói João, Joana e Antônia. Na frente, tocando a carroça José com a esposa ao lado segurando a filha mais nova Lúcia pela mão.

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Centenário de Joinville, fabrica de meias e fazenda Doehler

Seu João chegou ao Bom Retiro em 1951, poucos meses antes do centenário de Joinville, um dos principais eventos na história da cidade. Ali, naquele bairro, a família dele se instalou. O matagal ainda ocupava a região e, há poucos minutos do centro da cidade, as ruas eram de chão batido e o transporte da população era a bicicleta. Compraram um terreno, construíram uma casinha, na qual ele mora há mais de 60 anos, e foram se habituando ao lugar.

Uma mudança é sempre difícil, mas para as crianças a dificuldade é sempre maior. A liberdade existente no campo se perde, o cotidiano de vida tranquila dá lugar a agitação. E a família toda ficou deslumbrada com o que viram nos festejos do aniversário da cidade.

Muito próximo da nova residência de João havia uma Zona, bordel, boate, puteiro e muitos outros nomes que eram dados aquele local de diversão dos homens de Joinville. Era, de longe, a principal casa da cidade e uma das mais importantes do Norte de Santa Catarina. Meninas bonitas trabalhando para a Dona Martins, mulher negra, alta, obesa, de gênio forte e corajosa.

Não demorou muito para que a família começasse a se relacionar com as funcionárias da boate. Eram os vizinhos mais próximos e, ao mesmo tempo, os únicos com quem podiam conversar. Não era possível viver indiferente. O diálogo era a forma de se esquivar do sofrimento, da solidão. Além disso, as meninas ajudaram a manter a casa dos recém-chegados. Maria, a matriarca, começou a lavar e passar roupa pra elas, plantava e vendia flores e, sempre que tinha uma hora de folga, as garotas iam se “confessar” com a mãe que as “adotou” como filhas.

Aos meninos cabia a função de garotos de recado. Eram eles quem levavam as roupas para lavar e traziam de volta as que já estavam limpas e passadas. Eles também compravam algumas coisas para as meninas.

prettywoman_closer

Julia Roberts, como prostituta em Uma linda mulher e Natalie Portman, como estriper em Colser, perto de mais.

– Busca dois maços de Oliude, (Hollywood) – diziam elas.

E os garotos saiam a pé procurando um bar que vendesse aquela marca. Era o cigarro mais caro da época e, por isso, era muito difícil de encontrar. Os meninos o chamavam de “Cigarro de puta”. Quando achavam um bar que vendesse, entravam correndo, compravam e saiam em disparada de volta à boate, entregavam o troco as meninas e esperavam o seu pagamento. Geralmente as garotas devolviam o dinheiro que sobrava da compra para João e Marcos que iam aos tropeços para casa entregar as moedas aos pais.

Nos dias de calor, João empurrava o carrinho de picolés enquanto Marcos vendia e recolhia o dinheiro dos frequentadores da boate e das meninas que ali trabalhavam.

E assim os anos se seguiram, Dona Maria acabou adotando mais do que as meninas, mas também alguns dos filhos delas. Criou como seus, pelo menos três deles, que João tem, até hoje, como irmãos. O certo é que, naquele local, o menino teve contato com os homens mais importantes da cidade, enquanto em casa, o pai brigava com o padre e as beatas que vinham até ele com abaixo-assinados para expulsar a dona da boate daquela região.

Os anos se passaram, mas o contato com os verdadeiros Filhos da puta permanece.

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