A humanidade está em chamas

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2 de fevereiro de 2013 por deglutindopensamentos

 Patricia de Melo

MauricioElias_ArquivoPessoal

Mauricio Elias, Arquivo Pessoal

A noite já não é mais tão escura. Há luz na rua. Ela é vermelha e quente, como o sangue que corre nas veias. Ela pulsa, se consome e desaparece, como os invisíveis homens presos por homens. Há terror, medo. As janelas permanecem fechadas com trancas. As senhoras apreensivas não aguardam mais o ônibus passar. Os trabalhadores se acumulam entre catraca e portas, sempre com olhar atento.

Há perigo lá fora. Nada é menos seguro do que antes, mas agora a chama dos coletivos sendo incinerados denuncia a vilania dos rostos esquecidos que, outrora, estamparam jornais. Coquetéis Molotov voam como uma flecha ardente que almeja acertar em cheio a mente de uma sociedade sem lembranças. Não acerta. Nem suscita o sentimento mínimo de piedade racional. Há tiros. Gaz. Cheiro ardente de pimenta. Só não há compaixão. É possível ouvir os gritos no silêncio. As pernas trêmulas não têm força para sustentar a dignidade de quem acabou de apanhar. O homem machucado é arrastado, como um saco de qualquer coisa sem valor, para que os outros possam continuar a ser espancados.

O erro, o pecado, o passo em falso ou, quem sabe, apenas um infortúnio, privaram humanos de levantar da cama e abrir a porta. Não é apenas isso que acontece. Existe muito mais miséria e mediocridade. Como se caídos na criminalidade pela escolha aleatória do destino, a cada dia novos filhos, de uma sociedade que não amamenta a todos, ingressam no inferno de muros altos. Reabilitação é palavra posta em dicionário e sufocada pela superlotação das celas. A violência das ruas, apontada como responsável por moldar um caráter falho, não é menor que a dos corredores de uma prisão. Não há esperança, há espera.

Como se a ponta da faca fosse se tornar pluma os murros continuam sendo dados. Mais valem tijolos para cadeias do que para escolas. A educação não é eficaz como a chibata. Como olhar com admiração quem defende a violência do estado e repudia a cometida pelos que sofrem com esta? Dois pesos e duas medidas usadas por quem está longe demais. Dessa distância não é possível se envolver, refletir, criticar. De tão longe a única coisa que se escuta é o sussurro constante de que só há direitos para quem é direito. Não. Há para todos. Para quem viveu e quem matou. Quem comprou e quem roubou. Quem pagou e nem sequer cometeu. Sim, existem e precisam ser respeitados, revistos e cobrados. O que há de humanidade em festejar com orgulho homens pagos com o nosso dinheiro torturarem diariamente cidadãos que deveriam estar apenas impedidos da liberdade? Não é culpa de quem bate, nem de quem apanha. É maior que isso e sustentado pela covardia e silêncio de cada um de nós.

detentos

Circuito interno do Presídio Regional de Joinville mostra presos sendo torturados por mais de 4 horas.

Se há direitos humanos atrás das barras de ferro, então não sei o que significa o aumento de 40% dos suicídios de 2006 a 2008. Sim, é claro. Só pode ser a luz inebriante da razão mostrando que não há futuro nas algemas. É muito humano mais de 800 detentos com menos de 45 anos morrerem anualmente de causas naturais. É o tempo mais pesado e amargo que qualquer idade suportaria.

Os ônibus pegando fogo mostram mais que a violência nos presídios, do que a insegurança nas ruas. Mostram, acima de tudo, e por mais estranho que possa soar, um sentimento de irmandade que não se tem dos bons moços da sociedade para com aqueles marginalizados. Em poucas palavras, e na expectativa de que assim me faça entender, há mais clemência entre os que ateiam do que os que temem.

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2 pensamentos sobre “A humanidade está em chamas

  1. Rafael Ribeiro disse:

    Sinceramente, não creio que os ataques resolveriam o problema da violência carcerária, isso só acaba colocando mais fogo na fogueira – sem querer ser irônico. Os que estão lá dentro são punidos pelos delitos que continuam cometendo mesmo presos. Com a ajuda do celular e de pessoas influenciáveis, presos comandam o crime organizado numa sociedade que deveria estar sim, protegida daqueles que não cumprem as leis. Se eu acho correto o que os policiais fizeram? Não. Não sou a favor da violência, mas quantos inocentes e menores morrem por causa do tráfico comandando de dentro dos presídios? Quantos mais de uma sociedade civil e cumpridora de seus deveres deverão ser sacrificados até que alguém seja preso ou morto? Qual deveria ser o destino daqueles, que mesmo tendo perdido a liberdade, não se arrependem e continuam a praticar crimes? Não me cabe julgar. Mas ao que tudo indica, os ônibus incinerados, são também, uma retaliação à transferências de comandantes do tráfico. Enquanto a sociedade passa por toda essa onda de horror vinda de todos os lados, os sinais telefônicos do presídio continuam funcionando melhor do que na minha casa. É muito fácil falar do direito dos presos, enquanto sentada atrás de um computador no conforto do lar com toda a família em volta, difícil é se sensibilizar com a situação quando um dos presos foi quem assassinou o seu filho por causa de R$20,00. Se para a maioria deles, a vida não têm valor algum, que arquem com as consequências das suas decisões e erros. Ou será que é só a vida dos outros que não têm valor?

    • Então Rafael, acredito que não tenha compreendido a essência do texto. De modo algum defendo que os ataques sejam uma solução, mas são sim, na minha opinião, uma chamada para que há problemas graves nos presídios e eles precisam ser corrigidos. É óbvio que essa violência da queima de coletivos pode gerar mais violência, basta perceber que a acontecida dentro do presídio teve esse efeito. O que resolve o drama da violência carcerária é um olhar humano e preocupado da sociedade. Porém quantos de nós já tivemos a oportunidade de visitar uma prisão? Eu já estive lá por mais de uma vez. Minha profissão me exige isso e sei que apesar de ter visto muita coisa não vi, de fato, nada do que há lá dentro. Creio que culpabilizar quem está preso por continuar mandando no crime é tirar das nossas costas uma responsabilidade que nos pertence, pois, infelizmente, utilizamos as prisões como depósito de gente, não como um modo de recuperar e preparar novamente para o convívio na sociedade. Não há instrução, possibilidades lá dentro. É a lei do mais forte. Manda quem está mais tempo detido, quem cometeu o crime mais grave. Não porque não queiram se recuperar, mas por este caminho não ser real atrás das grades. Só estaremos protegidos quando tratarmos os detentos como seres humanos e recuperá-los com dignidade, caso contrário, a cadeia será uma má escola. A violência de nenhuma das partes me parece uma solução racional.
      Agora Rafael outro ponto importante, não lembro de nos conhecermos pessoalmente para dizer que permaneço sentada atrás de um computador. Talvez tenha feito essa figura de mim pelo modo como você age. A questão é a seguinte, enquanto você especula o que aconteceria se fizessem algo para minha família eu te respondo: já fizeram. Tenho familiares próximos que se envolveram e foram vítimas de assassinatos, roubos semanais em suas residências. Agora que você sabe que já passei por essa experiência posso te dizer: que bom que sou racional e faço bom uso disso. E mesmo na possibilidade, real no futuro, de perder o controle eu ficaria grata se o restante da sociedade deixasse de ser passional e fosse racional. Pensasse com as leis. No mais, a linha de ônibus incendiada é uma das que o meu pai dirige, nem por isso vou pregar a morte desses ex-presidiários, até porque a sociedade já matou eles faz tempo.

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