Joe e Max

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23 de janeiro de 2013 por deglutindopensamentos

Mike Conradt

Nova York, 22 de julho de 1938. Estádio dos Yankes lotado para prestigiar a nova luta do século. Uma plateia repleta de espectadores ilustres, como o brilhante ator Clark Gable, e o primeiro diretor do FBI, J. Edgar Hoover. De um lado do ringue, com 1,88m de altura e 24 anos, detentor do cinturão de campeão mundial dos pesos pesados, está um negro a defender as cores americanas. Seu nome é Joseph Louis Barrow, mas todos o conhecem apenas por Joe Louis. No outro lado, o desafiante, que tenta recuperar o cinturão. Dotado de 1,85m de altura e incríveis 1,93m de envergadura, aos 32 anos, ele não é mais um menino. Sob violentas vaias, o alemão se apresenta. É Maximillian Adolph Otto Siegfried Schmeling. Mas é mais fácil chamá-lo apenas de Max Schmeling. É a segunda vez que se enfrentam. Joe Luis tenta a revanche contra o algoz alemão, dois anos depois de ter sido derrotado. 

Seria apenas mais uma luta valendo o título mundial. Mas no contexto em que aconteceu, acabou por se tornar algo mais importante. Afinal de contas, ocorreu às vésperas da Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo via o nazismo alcançar seu auge na Alemanha. E lembremos que Schmeling era alemão. Como todo bom atleta que possa provar qualquer suposta superioridade da raça ariana, era querido por Adolf Hitler.

Pois bem, vamos à luta. Há pouco para se dizer, dado que a luta não durou mais que um round. Ouvindo de 70 mil pessoas vaias e xingamentos o acusando de nazista, o desestabilizado Max foi nocauteado por Joe no primeiro assalto. Um verdadeiro massacre do negro sobre o alemão. O boxeador americano não decepcionou o público, mesmo sendo portador de uma grande “responsabilidade política”. Aos fãs do esporte, deixo o vídeo da luta completa.

A história parece simples, e até clichê. Joe se torna herói nacional, derrotando o cruel vilão nazista. Assim, leva o querido führer a quebrar a cara mais uma vez no esporte (este que já vinha de uma ressaca das Olimíadas de Berlim, em 1936). Até lembra Rocky Balboa derrubando o malvado soviético Ivan Draco, em plena Guerra Fria, e ainda sendo aplaudido pelo público russo, enrolado à uma bandeira americana. Como só o velho Stallone sabe fazer… Mas a história do que havia por trás do confronto que de fato aconteceu é um pouco mais profunda, e os personagens são mais complexos, como só a vida real sabe fazer.

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Max e Adolf Hitler

A princípio, não há muito o que dizer sobre Joe Louis, além do que se pode prever. Um rapaz negro, de origem humilde, nascido no Alabama, que encontrou no boxe uma forma de escapar da pobreza e acabou por se tornar um dos melhores da história. Sem dúvida, foi um atleta genial. Venceu Jimmy Bradock (o Russel Crowe de “A luta pela esperança”) e se tornou campeão mundial em 1937. Manteve o cinturão por mais doze anos, em 26 defesas.

Max Schmeling não tem a história muito diferente. Filho de um timoneiro da marinha mercante, o humilde lutador se tornou, em pouco tempo, o melhor da Alemanha, e em 1930, o primeiro campeão mundial do país na categoria. Ao vencer o então temido Joe Louis em 1936, no primeiro confronto ocorrido entre os dois, virou instrumento da máquina de propaganda nazista. Mas há muito o que ressaltar.

Schmeling, ao contrário da grande maioria alemã, jamais se filiou ao Partido Nazista. Seu empresário (e grande amigo) era Joe Jacobs, um judeu. Sua esposa, a bela atriz tcheca Anny Ondra, também tinha ascendência judia. O lutador jamais abandonou qualquer um dos dois, mesmo com a ascensão do nazismo. E tem mais. Na terrível Noite dos Cristais, Max escondeu em sua casa dois garotos judeus, filhos de um comerciante, também amigo do boxeador. Ainda ajudaria os meninos Henry e Werner Lewin a fugir da Alemanha, que terminariam por se fixar nos Estados Unidos. Os gestos exemplares de Max Schmeling continuam. Ao ser convocado para a guerra, mesmo com o status de atleta famoso, ele não se acovardou, e se alistou em 1940 na tropa dos paraquedistas. Operou em ataques na ilha grega de Creta, em perigosas missões. Ao fim da guerra, encontrando dificuldades financeiras e desemprego, Max fez mais algumas lutas de exibição, até pendurar as luvas, em 1948. Em 1954, porém, veio a enriquecer, quando montou uma franquia da Coca-Cola na Alemanha. Viria também a se tornar grande amigo pessoal de seu grande algoz dos ringues, Joe Louis.

 

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Max na guerra

Voltemos para os Estados Unidos, então, para falar um pouco deste último. Após 26 defesas, Joe Louis se aposentou campeão, em 1948. No entanto, depois de uma investigação da Receita Federal Americana, descobriu-se que ele tinha uma série de irregularidades no pagamento de impostos e devia mais de 500 mil dólares ao governo. Valor, que somado a juros e inflação, resultaria em mais de um milhão de dólares. O culpado seria o próprio contador, que cuidou das finanças do boxeador durante um bom tempo. A única opção foi voltar aos ringues, onde perdeu duas de dez lutas e jamais recuperou o cinturão. Parou novamente em 1950, com sérios problemas financeiros. O herói nacional americano se tornava vítima do próprio país. Joe fez de tudo um pouco para tentar se sustentar. Trabalhou em hotéis acolhendo turistas, como lutador de wrestling (a luta do tal WWE) e ainda como árbitro da mesma categoria. Os homens que viriam a lhe sustentar seriam o gangster negro Frank Lucas (interpretado brilhantemente por Denzel Washington em O Gangster), indignado com o tratamento do governo americano ao ex-boxeador, e seu grande amigo íntimo, Max Schmeling. Isso mesmo. Max dava mais um grande exemplo de humanidade. Depois de problemas com cocaína, algumas cirurgias nos anos 70 e até ataques paranoicos, Joe Louis morreu em 1981, vítima de ataque cardíaco. O funeral foi pago pelo ex-pugilista alemão.

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Louis e Max

Oito anos depois, Henry Lewin, um bem sucedido empresário do ramo hoteleiro de Las Vegas, outrora um garoto judeu assustado, escondido na casa de um amigo do pai, convidou Max para anunciar ao mundo seu feito heroico até então nunca revelado, em frente a um público emocionado. O modesto Schmeling morreu em 2005, aos 99 anos.

Sobre esses fatos, chegamos a conclusão de que Max Schmeling, ao contrário do que gritavam os espectadores do Yankee Stadium, estava muito distante de ser um nazista. Era na verdade um homem extremamente admirável. Ao lado de nomes como os de Stauffenberg e Oskar Schindler, aparece como uma forma de limpar a enorme mancha negra que paira sobre a história do povo alemão. A propósito, o autor dessa mancha nem alemão era.

Do outro lado, um grande herói americano, que querendo ou não, tapou a boca do führer, e foi cruelmente esquecido pelos Estados Unidos. A ajuda lhe veio dos mais mais improváveis lugares. As mãos que um dia tentaram lhe deferir golpes, agora lhe seguravam e davam todo o apoio que precisava. O que nos leva a pensar em como a vida pode ser contraditória. Até um mafioso conseguiu demonstrar mais humanidade que o governo estadunidense.

Deixo aqui a sugestão para alguns filmes diretamente ligados a essa história, e outros nem tanto. O primeiro é “Joe and Max”, feito para a televisão. Dirigido por Steven James e lançado em 2002, conta a bela história dos dois lutadores e sua grande amizade. “O campeão de Hitler”, filme alemão lançado no ano passado, trás a história da vida de Max Schmeling, dentro e fora dos ringues.

E sobre alguns personagens citados acima, como o mafioso Frank Lucas, o lutador Jimmy Bradock, o general Claus von Stauffenberg e o lendário empresário alemão Oskar Schindler, temos respectivamente os filmes “O Gangster”, de Ridley Scott, “A luta pela esperança”, de Ron Howard, “Operação Valquíria”, dirigido por Brian Singer, e “A lista de Schindler”, do Spielberg.

 

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