Um pouco de democracia e silêncio

3

16 de janeiro de 2013 por deglutindopensamentos

Mike Conradt

Você certamente já ouviu falar da Islândia. Aquela ilhazinha da Europa feita só em gelo, com uma meia dúzia de vulcões e país de origem do Lazy Town, série infantil que passa no Discovery Kids. Além de ser a terra de Sportacus, esse lugar também foi sede de um dos eventos políticos mais importantes (e menos repercutidos na mídia) dos últimos anos.

sportacus-lazy-town

Sportacus

A história começa em 2008, junto com a crise econômica que assolou a Europa. O governo da nossa heróica ilha toma logo a primeira medida de combate a crise, nacionalizando seus bancos privados. No entanto, os clientes desses bancos estão em sua grande parte na Inglaterra e Holanda, e precisam ser reembolsados. Cerca de 3.700 milhões de euros a serem pagos pela Islândia, uma quantia equivalente a várias vezes o PIB do país. Nessas condições, o queridíssimo FMI entra em ação, emprestando 2 milhões de euros, somados a outros 2,5 bilhões dos países nórdicos. Além disso, o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia desejavam simplesmente assumir o controle da dívida, fazendo com que o país pagasse, sem levar em consideração as consequências.

Iniciam-se então os primeiros protestos. Uma população revoltada vai as ruas, exigindo a renúncia dos governantes e atingindo o êxito. Antecipam as eleições para aquele ano de 2009, elegendo uma nova cúpula esquerdista, antes críticos assíduos da antiga gestão neoliberal. Pois bem, hipocritamente, o novo governo concorda em pagar o que deve, cobrando do cidadão islandês 100 euros mensais durante quinze anos. Em síntese, o cidadão estaria pagando pela enorme cagada feita unicamente pelo setor privado.

Ciente do seu poder, a massa islandesa novamente agiu, exigindo um plebiscito popular para a aprovação da decisão. O governo cedeu, e 93% da população votou em não pagar a dívida. A pressão externa reapareceu, com ameaças de represálias e isolamento do país, por parte principalmente do Reino Unido. Pergunto ao leitor se isso não o faz lembrar de outro evento histórico ocorrido, um pouco mais perto. Pois disse o chefe de estado islandês: “nos disseram que se nos negássemos a aceitar as condições da comunidade internacional, nos transformariam na Cuba do Norte. Mas, se tivéssemos aceitado, nos teriam convertido no Haiti do Norte”. A população continua a pressionar o governo, e o mesmo inicia investigações contra os verdadeiros responsáveis pela catástrofe econômica, os banqueiros. No mesmo ano, a Interpol emite vários mandatos de detenção para os antigos donos de bancos do país.

islandia-revoluc3a7c3a3o2

Revolução na Islândia

Agora entra a parte mais legal da história. O povo decidiu escrever uma constituição. Foram eleitos 25 cidadãos, entre outros 500 que não pertenciam a nenhum partido para escrever a nova “Carta Magna” do país. A constituição foi escrita pela internet, e os cidadãos puderam acompanhar o desenvolvimento da mesma e enviar sugestões. Foi escrita visando libertar o país das condições neoliberais e do poder econômico estrangeiro. Em outubro de 2012, em um novo referendo, 66% da população votou a favor do novo texto. Sim, a constituição escrita pelo povo foi aprovada.

O fato é que, sem ajudar empresas estrangeiras e sem doar dinheiro aos empresários, além de prender os corruptos, a Islândia foi o primeiro país a escapar da crise econômica. O que aconteceu lá é um dos maiores exemplos de democracia já vistos. Pois democrata não é o país que possui um sistema de eleições diretas. Democracia é poder do povo. E praticamente não existe. Confesso que na primeira vez que li sobre isso, não acreditei.

É interessante frisar o enorme silêncio dos grandes veículos de mídia. Principalmente no resto da Europa. Ainda hoje, países como Portugal, Grécia, Espanha e Itália enfrentam as consequências da crise, sempre recebendo incentivos de privatização. A solução foi encontrada. No entanto é prejudicial aos verdadeiros causadores, ocupantes do mais alto escalão da sociedade. O que justifica todo o silêncio e o que não é de se impressionar.

 

Anúncios

3 pensamentos sobre “Um pouco de democracia e silêncio

  1. Denilson disse:

    Muito bom o texto. Isso sim que é democracia.

  2. O texto está muito bom. Entretanto, desculpe-me por atentar a este fato, mas “cede” é do verbo “ceder”; quanto se trata de local, a palavra é “sede”.

Degluta conosco...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Capitão Barba Ruiva, a sua livraria virtual

Capitão Barba Ruiva a melhor opção em livros

Baú

O que tem pra hoje?

janeiro 2013
S T Q Q S S D
    fev »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Leitores

Nós que aqui estamos, por vós esperamos.

  • 111,792 pessoas já nos viram

Medalhas do blog

%d blogueiros gostam disto: