Monstros criadores de monstros

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9 de janeiro de 2013 por deglutindopensamentos

Mike Conradt

Olá leitores. Esse é o meu primeiro texto por aqui, então tenho que me esforçar para agradar. Afinal de contas, a primeira impressão é a que fica. Gostaria portanto de abrí-lo puxando o saco da galera, e agradecendo a todos os integrantes do blog, em especial o meu queridíssimo eterno “Professor de História”, aqui conhecido por Felipe, idealizador do blog, e homem que me convidou para participar da equipe. Espero dar o meu melhor, e que ao fim do ano, minha nota de redação no Enem melhore consideravelmente.

Pois bem, bajulação a parte, iniciemos então o verdadeiro propósito dessa postagem.

Há uns dois dias, me encontrava semi-acordado em frente à televisão, em mais uma dessas maravilhosas madrugadas de férias. Trocando os canais, passo por um filme no mínimo interessante. Monster – Desejo Assassino, ou apenas Monster, no idioma original. Com uma dublagem escrota, trazia no elenco uma irreconhecível Charlize Theron, diabolicamente feia, contracenando com aquela menina que fez o Gasparzinho, a Christina Ricci. Pois bem, a linda Charlize (aqui uma verdadeira baranga), interpreta de forma brilhante uma prostituta que se torna serial killer, matando seus clientes com tiros a queima-roupa. Passada a história, descubro ao fim que o filme conta na verdade uma história real. Até aqui nada demais (para quem não assistiu). Entretanto, depois de ver a película (é interessante frisar que eu só assisti da metade em diante), dou uma boa pesquisada na internet, para saber um pouco mais sobre a vida da mulher. E é forte.

monster

Charlize Theron

Aileen Carol Pittman, que ficou conhecida como Aileen Wuornos, nasceu no dia 29 de fevereiro de 1956, no estado de Michigan, Estados Unidos. Seus pais adolescentes se separaram alguns meses antes dela nascer. Sua mãe a abandonou com o seu irmão, quando ela tinha seis anos. Passou então a ser criada pelos avós. Por fim, seu pai, um psicopata, cometeu suicídio na cadeia quando ela estava com nove anos. Mas não para por aqui. Com quatorze anos, Aileen engravidou do próprio irmão. Com quinze anos, inicia a carreira de prostituta. Em 1976, uma luz no fim do túnel. Seu irmão morre de câncer e ela herda dez mil dólares de seguro. No entanto, a inculta Aileen gasta rapidamente em luxos fúteis, como só um americano consegue fazer. Em resumo: a vida dela até aqui, usando eufemismos bem fortes, foi uma grande merda.

Na Flórida, antes de iniciar suas atividades como assassina em série, já tinha cometido uma série de delitos, e passado pouco mais de um ano na prisão. É na Flórida também que ela conhece Tyna Moore (no filme, identificada como Selby Wall), com quem inicia um relacionamento. Elas se sustentam com o pouco dinheiro conseguido pela prostituta nos programas. O primeiro assassinato de Aileen ocorre depois de ela ser brutalmente espancada e estuprada por um cliente. Depois disso, cerca de outros seis assassinatos se sucedem. Tudo isso no fim dos anos noventa. No filme, é mostrado que ela não matou ninguém que pensou que não merecesse morrer. Em alguns casos, ela foi piedosa.

220px-Wuornos

De qualquer forma, para sacramentar a sua vida miserável, Aileen foi encontrada pela polícia, na mesma época. No seu julgamento, sua namorada testemunhou contra ela. Ressalto aqui a bem pensada cena que retrata essa parte da história no filme. Não vou dar detalhes para não atrapalhar com os spoilers. Quem quiser ver, que assita ao filme. Por fim, ela é condenada à morte, recebendo a injeção letal em 2002, depois de passar doze anos no corredor da morte.

Agora, algumas ironias nessa história. Aileen Wuornos alegou em sua defesa que a polícia não a prendeu antes para que sua história pudesse gerar lucros com livros e filmes. Apesar de parecer uma declaração ridícula, vinda de uma mulher portadora de transtorno de personalidade limítrofe, ela acabou acertando. A versão cinematográfica de sua vida rendeu 30 milhões de dólares. Aileen foi executada em 2002, o filme lançado no ano seguinte. Por fim, a maior ironia de todas: no dia 29 de fevereiro de 2004, quando a nossa infeliz personagem completaria 48 anos de idade, Charlize Theron é premiada com o Oscar de melhor atriz pelo seu ótimo trabalho no filme.

Essa trágica e irônica história nos leva a pensar. O contraste entre o sucesso da atriz em função da tragédia total que foi a vida de Aileen Wuornos é um ponto a ser frisado. Outra conclusão interessante, é a que ponto pode chegar o estado mental de uma pessoa cuja vida foi totalmente prejudicada por fatores externos. Não podemos nos esquecer que a história contada se passa em um país desenvolvido. Peço que relembrem as aulas de sociologia do ensino médio, se for possível, e reflitam sobre a teoria do sociólogo francês Emile Durkheim, que dizia que a sociedade molda o indivíduo, e não o contrário. Não podemos jamais nos referir a esta mulher como ”monster”. Monstruoso foi tudo aquilo que havia em volta dela. Monstruoso é tudo aquilo que a “monstrualizou”.

Fontes: o filme em si, e a página: http://www.chasingthefrog.com/reelfaces/monster.php

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2 pensamentos sobre “Monstros criadores de monstros

  1. Heloísa disse:

    Bom texto. Gosto quando se reflete as causas…Não que “os fins justifiquem os meios”, mas ela é vítima de uma sociedade que, em nenhum momento, fez algo para sanar a dor que passou. E atualmente, neste mesmo país, está sendo julgado um menino de 13 anos por ter matato e abusado de seu irmão, porém o que essa criança (sendo julgada como adulto, podendo pegar até prisão perpétua) passou foi tão monstruoso (acho que mais) quanto o que ele fez com seu irmão.
    Dêem uma olhada!
    http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/bbc/2012-09-25/caso-de-menor-acusado-de-matar-irmao-cria-debate-sobre-justica-nos-eua.html
    Novamente, parabéns pelo texto!

  2. Lucy Nunes disse:

    Parabéns! Ótimo texto e ótimo reflexão.

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